Todos temos algo de que não gostamos. Eu tenho algumas coisas que não gosto mesmo nada. Não gosto de lulas, polvos, chocos e toda aquela família estranha com muitos braços e que se abana sozinha no prato, mesmo depois de cozinhados. Não gosto de figos porque quando se abrem para comer, não conseguimos distinguir o que é fruto do que é minhoca. Abomino baratas devido a um grande trauma de infância, em que uma barata voou até à minha cabeça. E não gosto de arrufadas, aquele bolo em forma de não-sei-o-quê com um bocado de coco ralado no topo. Qualquer uma destas coisas sempre desgostei desde criança...e nunca aprendi a gostar.E qual não é o meu espanto quando a minha mãe traz para casa, toda pimpona e alegre, uma arrufada para a filha dela? Quando ela me abriu o embrulho do bolo, toda orgulhosa por me oferecer algo doce (sabendo que neste momento da minha vida eu realmente preciso de glicose), eu não sabia se ria ou se chorava...
Não porque aquilo era uma arrufada. Mas porque a minha mãe não me conhece.
Perguntei-lhe tristemente: "Não sabes que não gosto de arrufadas, mãe?". Respondeu-me com uma evasiva qualquer e ali fiquei eu...sem reacção.
Estranho é como aquela arrufada fez-me pensar durante horas e dias nas relações que mantenho com os mais estreitos...
Até que ponto os nossos pais nos conhecem? Será que é por distracção da parte deles? Ou será culpa nossa porque nunca nos preocupámos em marcar a nossa personalidade, independente da deles? Será que um dia nos casarmos, eles vão mandar fazer um bolo com caju, sabendo que somos alérgicos? Porque é que os pais trazem arrufadas para os filhos? Não podiam trazer somente um bolo de arroz ou um queque, que colhe unanimidade entre as mulheres?
"We are all alone, even if we have somebody by our side".
