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Garantia expirada

25.1.07
Aproximou-se do balcão com as mãos trémulas. Um pingo de suor atreveu-se a cair-se-lhe pela testa, mas ele, num ápice, limpou-o com as costas da mão. Aí, como por pirraça, os outros poros começaram a libertar pequenas gotinhas de suor e estas combinaram cair todas ao mesmo tempo.
Quem olhasse para este homem com atenção, aperceber-se-ia do óbvio: "Coitado, está a chorar do cabelo. Acontece." Enquanto lutava com as gotas malandras, pousou no balcão com todo o cuidado uma caixa de tamanho pouco maior do que um punho. Tremia. Era o nervoso.
- Boa tarde, senhor. Em que lhe posso ser útil?
- Olá. Vim aqui para pedir que me reparem isto.
- Com certeza. Tem o recibo de compra?
- Hmm...Não, não tenho.
- Então deixe-me verificar aqui no nosso computador o código do produto. Importa-se de abrir a caixa para ver o estado em que se encontra, por favor?
Com toda a reverência e respeito, ele abriu a caixa, tirou de lá dentro o coração despedaçado, abriu um lencinho de seda violeta e pousou-o sobre ele.
- Violeta era a cor preferida dela - murmura.
A funcionária olha-o num misto de compaixão e reprovação:
- Lamento imenso, mas o coração já passou da garantia. Não pode ir para arranjo.
- Não me diga isso, ele está partido mas não foi devido a negligência minha. Quer dizer, eu deixei-o cair uma vez, mas apanhei-o muito rapidamente. Não ficou mal. Hmm, bem, depois houve aquela vez em que fui com ele contra a parede, mas também não aconteceu nada. Parecia-me em bastante bom estado. Mas hoje de manhã, ela saiu e deixou-me o coração neste estado. Não sei o que se passou, mas queria muito arranjá-lo. Sabe, ela é muito importante para mim...
- Pois, meu senhor, eu acredito. Mas estas são as regras da casa e infelizmente não posso fazer muito mais. Esse tipo de material é muito sensível, tem de se ter muito cuidado. Lamento muito.
A funcionária despachou-o e chamou o cliente seguinte.
Ele arrumou novamente o coração despedaçado dentro da caixa, pôs o lenço no bolso e saiu.
E foi fazer o que deveria ser feito, sem mais delongas.

A egoísta de lágrimas

22.1.07


No outro dia pus-me a pensar em como sou difícil para chorar no que diz respeito à minha vida privada. Sim, porque no que se respeita a filmes, emociono-me com relativa facilidade.
O meu pai chamava-me "Maria chorona" quando era adolescente. Dizia-me sempre que eu chorava tanto que quando precisasse de lágrimas, não as teria. Profecia.
É oficial: sou egoísta de lágrimas.

Post-its sentimentais

22.1.07


Hoje, ao passear por um blog engraçado de alguém que não conheço mas que tem uma forma de escrever muito simpática, deparei com a seguinte citação:

"Elsa Raposo acabou com mais um namorado, dois meses depois de retirar a tatuagem com o nome do anterior e fazer outra com o nome do novo. Se é para pôr e para tirar, por que é que ela não usa post its?"

Apesar da comicidade da situação, comecei a pensar como seria bom se utilizássemos post-its sentimentais. Daqueles que colamos e descolamos facilmente. Por exemplo, quando gostássemos de alguém, colocávamos um post-it com o nome dele ou dela perto do coração e depois, um dia, caso essa pessoa nos magoasse ou deixássemos de gostar dela, simplesmente arrancaríamos aquele pedacito de papel, com a cola já gasta e nem sequer nos doía ao tirar.

Posso dizer que o meu balde do lixo de post-its sentimentais estaria cheio. Prontinho a reciclar.

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