Era pequena...adorava quando o pai se fingia de mudo e comunicava com ela durante horas, tendo ela de adivinhar o que ele queria dizer...adorava quando ele enchia a bocheca de ar e ela, dando nela um beijinho, a bochecha desinchava...quando ia à praia achava charmoso ver umas covinhas engraçadas nas nádegas das mulheres bonitas que passavam, dizia que eram "covinhas de gente grande"...adorava quando ia com a mãe beber café e a mãe lhe deixava lamber a colher com aquele gostinho a cafeína...Era pequena...adorava fazer jogos fingindo ser os vários participantes, não tinha irmãos nem ninguém que brincasse com ela, portanto tinha de arranjar mais personagens para a sua vida...mas era justa, nem sempre vencia os jogos só porque ela era todos os participantes...às vezes ficava em segundo, outras em terceiro...Adorava água e ir para a praia nadar...não tinha medo de cãimbras nem de peixe-aranhas, nadava até que as pernas se cansassem e os dedos ficassem enrugados...Já aí adorava cantar...adormecia-se a si própria cantando canções de embalar, mas não as canções de embalar do atirei-o-pau-ao-gato nem do ah-ah-ah-minha-machadinha, mas sim canções a sério, cantigas do Djavan e da Alcione, os cantores brasileiros que mesmo 20 anos depois continuaria a gostar...Era pequena...não se preocupava com a beleza nem se os seus dentes eram direitos...o importante era mostrá-los e sorrir sempre...Sorria a todos, aos amigos, aos velhotes, até a um homem sinistro que um dia lhe convidou para ir a casa dele porque tinha um porta-chaves com música para lhe dar...sorriu mas não foi, disse que tinha de ir perguntar à avó e não voltou para perto do homem mau...adorava tirar as folhinhas brancas dos malmequeres, mal-me-quer bem-me-quer muito-pouco ou-nada...Tudo lhe corria bem...Era pequenina...