Há oito anos e 20 Kgs atrás mudava-me para Leiria, numa altura em que me despedia dos meus 17 anos e abraçava a maioridade.
Sob a desconfiança dos meus pais e com uma simpática média de secundário de 16 valores, que me permitia entrar praticamente no curso humanístico que desejasse, decidi inscrever-me na Licenciatura de Tradução no Instituto Politécnico de Leiria. Ali encontrei das pessoas mais interessantes e marcantes da minha vida que ainda hoje permanecem entre os meus contactos mais chegados.
Naquela cidade, vivi romances, grandes amizades, crises de fé, alguns amores e tentações, muitos orgasmos intelectuais, apaixonei-me pela arte do cinema e pelo cheiro dos livros e dos jornais.
Eu que nunca tinha usado um casaco comprido na vida, na cidade mais húmida do país adaptei-me ao frio e à estação de Inverno que até então nunca tinha conhecido intimamente. Morei lá 4 anos e vivi em 5 casas diferentes, mas fui verdadeiramente feliz na última, com a minha querida Sílvia de Coruche e a Sandy venezuelana-da-Madeira. Ontem desempacotei os últimos caixotes datados do último mês em que lá estive, Setembro de 2005: abri-os e encontrei para minha grande surpresa uma enorme colecção de
Jornal de Letras e dos extintos Suplementos Mil Folhas do Público, que coleccionava religiosamente.
Leiria foi a cidade em que me tornei adulta e a cidade que assistiu à minha explosão como ser humano.
Em Outubro de 2005 fui para o Rio de Janeiro. Fui fazer um estágio curricular, a dar aulas de Inglês. Tinha alunos que eram meninos favelados, como antigas professoras universitárias.
Era a primeira vez que andava de avião: 12 horas para baptismo de vôo, nunca fiz as coisas por metade.
Quando falo da minha estada no Brasil, todos pensam que estive lá 1 ano ou até mais. Na verdade, estive lá 3 meses. Mas foram 3 meses sem qualquer contacto com Portugal, a Internet não era uma coisa tão comum e era lentíiiiiiiissima, fazendo daquilo uma imersão total. Morei com um carioca e três mulheres cearenses e recebi lições de vida valiosíssimas. Aprendi a ser vaidosa no Rio e amei aquele povo como ninguém. Bebia caipirinhas todas as noites, fui para a praia no dia de Natal sob uns escaldantes 40 graus, nunca fui assaltada e fazia amigos nas filas nas lojas. "Moça, você tem de vir na minha casa. Eu moro lá em Vila Isabel, cê tem de pegar o ônibus 31 que passa lá pertinho pertinho e vem tomar um suco na minha casa." As pessoas lá são assim.
Marcou-me de tal forma aqueles meses que ainda hoje tenho a minha versão romantizada do Brasil. Que é verdadeira.
Em Fevereiro de 2006, depois de um ano quase sem Inverno, vi neve pela primeira vez quando aterrei em Milão. Ia como estudante Erasmus, embora tivesse já feito todas as cadeiras. Fui lá fazer disciplinas extra-curriculares como História do Médio Oriente, História e Cinema, Literatura Italiana, Literatura Francesa e Tradução Italiano-Inglês.
Cheguei lá sem saber dizer sequer "cielo", saí de lá 3 anos depois, a interpretar de Português para Italiano numa reunião com o homem mais poderoso de Milão, o Presidente da Regione Lombardia. (pronto, vá, depois do Berlusconi, o homem mais poderoso de Milão)
Voltei a pegar numa bicicleta depois de décadas de jejum, troquei duas vezes de trabalho, conseguindo duplicar o meu salário de um ano para o outro. Sendo Milão uma cidade com 3 aeroportos, usufruí deste espaço multicultural e cosmopolita até ao limite, aventurando-me por todas as minhas cidades de sonho, sozinha ou acompanhada, conforme calhasse. Fiz muitos amigos, contrariando a minha própria teoria: eu acreditava piamente que quando se acabava o período de estudos era difícil fazer amigos. Pelos vistos não. Sempre fui assim e sempre serei. It's my thing.
Pensava que a decisão mais difícil da minha vida seria deixar Milão, a cidade onde me tornei mulher. E foi. Fiz as malas, empacotei 3 anos de vida e regressei à cidade que me viu crescer, Portimão. Com que por coincidência, a empresa onde trabalhava entrou em processo de falência e provavelmente fechará as portas em Dezembro. Bom
timing o meu, hein?
Continuei a trabalhar como tradutora freelancer e a vida corria-me bem. Nas calmas.
Sem procurar nada e quietinha que estava no meu canto a frequentar o Curso de Formação de Formadores (CAP) e a começar a tirar a carta de condução, recebi uma proposta para um dos meus trabalhos de sonho: na área dos serviços linguísticos, mas como gestora de projectos.
Fui à entrevista em Lisboa no mês de Outubro e passada uma semana recebi a notícia de que me tinham escolhido - contra as minhas expectativas, devo admitir - e começo a trabalhar no início do mês.
Desisti do CAP, da escola de condução, contei a novidade à família e amigos e no dia 1 de Novembro de 2009, mudo-me para Lisboa e começo uma nova era. Tem-me vindo à mente de como tantas pessoas que conheço rogam aos céus uma oportunidade para começar de novo, uma oportunidade para se aventurarem e fazerem algo totalmente diferente. Vejo-me a mim nesta posição de já ter começado do zero tantas vezes e sinto-me afortunada.
Já vou mais ou menos na minha terceira vida e pela primeira vez em muito tempo estou estupidamente feliz.