Para assinalar o primeiro dia do ano em que não uso collants e que portanto assinala o começo do Verão para mim, coloco a canção que é o maior hino ao tempo do calor.
É escrita e composta pelo Djavan, o meu artista preferido (pronto, decidi-me, é mesmo ele o meu cantor favorito em todo o mundo), embora não saiba porquê prefiro esta música numa versão cantada pelo Caetano Veloso ao vivo no álbum "Prenda Minha". Como não encontrei a versão online, partilho convosco uma versão live pelo próprio Djavan.
Este senhor brinca como as palavras como quem respira. Quando um dia engravidar, a primeira coisa que farei é colocar um rádio com Djavan junto à minha barriga, para que o/a bebé comece a sua vida a ouvir boa música.
Céu de Brasília
Traço do arquiteto
Gosto tanto dela assim
Gosto de filha música de preto
Gosto tanto dela assim
Essa desmesura de paixão
É loucura de coração
Minha Foz do Iguaçu
Pólo Sul, meu azul
Luz do sentimento nu
Esse imenso, desmedido amor
Vai além que seja o que for
Vai além de onde eu vou
Do que sou, minha dor
Minha Linha do Equador
Mas é doce morrer nesse mar de lembrar
E nunca esquecer
Se eu tivesse mais alma pra dar
Eu daria Isso pra mim é viver...
Vou matar saudades de amigos, de ex-colegas e de uma pessoa muito especial. Adivinham-se muitas emoções.
Se alguém for até lá também, poderá encontrar-me pelas ruas de Porta Ticinese, no meio das Galerias Vittorio Emanuele, deitada na relva do Parco Sempione, num aperitivo na La Ringhiera, no concerto dos Neri per Caso no Blue Note, sentada numa esplanada no Corso Sempionea beber um rossini, a beber um cappuccino na Mondadori do Duomo, a comer um gelado no Chococult, a carregar 10 livros na Feltrinelli da Piazza Firenze, a comer um panzerotto do Luini, ou no terraço do Hotel Cavalieri a beber un prosecco gelado.
Nota: Dou um tiro a quem voltar a dizer que Milão é cinzenta.
Adoro a métrica e o ritmo desta frase. Só podia ser cantada pelo Gil.
A minha melhor amiga vai esta semana ao Rio de Janeiro. Pediu-me para lhe dizer os locais que não pode perder absolutamente. Há 10 minutos abri uma folha do Word e comecei a escrever:
A não perder no Rio de Janeiro:
- Corcovado e passeio de teleférico. A vista mais bonita do mundo.
- Cristo Rei, obviously
- Andar de táxi pelo menos uma vez no Rio. É muito divertido e barato.
- Arpoador – vista sobre o mar (zona sul). O melhor pôr-do-sol do Rio de Janeiro.
- Saara / Uruguaiana - Vende-se tudo ali, tens de andar muito e comprar muitas pulseiras. São várias ruas misturadas com o camelódromo maior do mundo.
- Jardim Botânico (Parque Lage) - era aqui que o Tom Jobim escrevia muitas das suas músicas. É uma zona perfeita e fresca para passear.
- Garota de Ipanema, é o restaurante/barzinho onde o Vinicius de Moraes e Jobim escreveram a canção mais famosa da língua portuguesa. Tens de ir lá. Imperdível. É em Ipanema, claro.
- Sambódromo - Mesmo não sendo Carnaval, tens de ir lá ver como é que aquilo é, muitas vezes até fazem concertos lá. Eu vi o da Alcione.
- Bairros de Vila Isabel e Santa Teresa.
Para Vila Isabel (os bairros da zona norte que aparecem nas novelas são quase sempre filmados lá. É (mais ou menos) seguro, giro e muito típico) podes ir de ônibus normal. Para Santa Teresa, pegas o bonde (eléctrico).
- Vai à praia do Leblon. É lá que os actores todos vão.
- Prova o verdadeiro suco de abacaxi com hortelã
Podia continuar a escrever até a memória me falhar, mas achei que uma página Word era suficiente.
Sou uma privilegiada por ter vivido nesta cidade. Foi há 5 anos e parece que foi noutra vida. Gostava de poder dizer que me lembro de tudo como se fosse ontem, mas não. Há muitos detalhes que me se escaparam, memórias que estão no fundo do baú. A única coisa que sei e que repito obstinadamente é que o período em que lá morei, qual pé-de-chinelo, foi o período da minha vida em que fui mais feliz. Sentia-me linda e maravilhosa, não usava maquilhagem, usava sempre minissaia e fio dental na praia, bebia 10 cervejas seguidas e estava lúcida e de pé, todas as noites havia capirinha e salada de alface temperada com lima. Comprava um colar ou uma pulseira todos os dias a 2 reais. Usava o meu cabelo solto como o Caetano nos seus tempos gadelhudos. Passava o dia a cantar e a conhecer pessoas na rua, porque a amizade é o hino daquele país.
10 dias não são nada, mas tenho a certeza que a Lu vai regressar com a sensação que esteve no sítio mais bonito do mundo.
Este sábado à noite foi um desfile de episódios caricatos no Bairro Alto.
Tenho imensa vontade de vos contar que conheci um menino simpático da blogosfera, que fui apresentada a uma cantora conhecida da nossa praça e que um filho de um dos políticos mais famosos de Portugal de todos os tempos andou a flirtar comigo, logo que eu que sou anti-flirtatious por natureza.
Queria contar-vos o quanto me diverti com os meus amigos e quantas gargalhadas dei e lágrimas de alegria verti, já deitada na cama, junto à minha amiga quando nos lembrávamos das figuras tristes que fizemos.
Resume-se a noite a estas pérolas, quando a minha amiga se foi apresentar ao tal jovem famoso.
- Mas tu tens namorada? - pergunta ela
- Sim, tenho - responde o filho do político
- Ohhhhh!!! - eu e ela em uníssono
- Mas sabes que amanhã podes já não ter, não é? - insiste ela
- Sim, eu sei - diz o filho do político, encolhendo os ombros.
Sinceramente, não há palavras para ilustrar o quão cómico tudo isto foi.
E como não há palavras que façam justiça à loucura desta noite, não vou escrever nada e conto-vos quando vos encontrar pessoalmente. Conto com voz, mãos e gargalhadas à mistura, que assim é que é bom.
Quando me mudei de Itália para Portugal, um dos motivos maiores de stress foi como transportar a (estou tentada a utilizar a palavra "tralha", mas não quero esnobar tanto as minhas coisinhas) imensidão material acumulada ao longo de quase três anos de vida. As dezenas de sapatos, roupas, documentos, DVDs e...livros.
Ia comprando os livros, ou porque eram novidades, ou porque naquele dia acordei e decidi que queria conhecer a obra toda do Agualusa ou do Pirandello, ou porque eram clássicos, ou porque eram baratos. Ir passear ao centro de Milão onde os livros custam uma ninharia para mim era um evento fabuloso.
Primeiro lia revistas literárias com as críticas. Depois dirigia-me à Mondadori ou à Feltrinelli e escolhia-os a dedo. Estar perto das mesas recheadas de livros, tocá-los, trocar olhares com os outros compradores, sorrir quando alguém pega num livro que nós já lemos, comprar o mesmo livro em italiano, inglês e francês, só pelo prazer idiota de comparar...tudo isto me deixa em êxtase. Em Agosto tinha acumulado perto de 120 livros, em italiano, francês, inglês, espanhol e português. Daqueles 120, tinha lido uns 7. Quando se tem praticamente dois trabalhos e o tempo livre é para viajar, não há sem dúvida tempo para ler. Ou pelo menos essa é a desculpa que usava.
O Hugo, o meu amigo matemático e meu consultor financeiro, aconselhava-me a não comprar mais livros enquanto não lesse os que tinha. Até que eu lhe contei que na mesa de cabeceira, tinha - já iniciados - uns cinco ou seis livros. Gosto de ir lendo vários ao mesmo tempo e disse-lhe muito compenetrada:
- Sou uma puta de livros. Ando com vários ao mesmo tempo.
Hoje é o Dia Internacional do Livro que assinala exactamente esta paixão que nutro pelos livros.
Estou encantada com a nova campanha publicitária da SUMOL.
Não sou amiga de refrigerantes e SUMOL, pessoalmente, faz-me vomitar. Mas é das melhores campanhas que apareceu no país nos últimos tempos. Estão espalhados por toda a cidade vários outdoors com frases sugestivas sobre um possível futuro cinzento que nos espera. E eles lançam o repto:
Se gosto imediatamente de uma pessoa, não descanso enquanto ela não for a minha melhor amiga.
Gosto de viver aquelas amizades que, a partir do momento em que se conhece o outro, sabe-se logo que há ali uma química extraordinária e que não podemos atravessar uma vida sem nos partilharmos um ao outro. A duração e profundidade deste tipo de relações não é relevante. O que importa é mesmo a intensidade. E sempre me diverti e cresci muito com isso. Sabem aquela sensação de paixão à primeira vista, em que a primeira vez que colocamos os olhos numa pessoa o queremos despir imediatamente? Isso acontece-me, mas no campo da amizade. E sem implicar a parte do despir, claro.
O facto de ter crescido sem irmãos e sem vizinhos próximos fez-me desenvolver uma necessidade de amigos maior do que o normal. Afasto-me terminantemente do conceito pejorativo de filha única, porque o meu pai "nunca papou grupos comigo", nunca me extra-mimou. E como não tenho irmãos, tenho amigos. Daqueles que são como irmãos.
Desde que o conceito de amizade verdadeira se desenvolve numa pessoa (por volta dos 10 anos) tive muitos amigos que chegaram e partiram, mas tenho alguns que obviamente se mantêm. Umas há já 15 anos, outras há 12, outras há 10 e outras mais recentes mas, ainda assim, fortes e estáveis.
Hoje lembrei-me da Sara. Conheci-a no fabuloso Verão de 1998. Eu costumava sair com o primo dela que era um vizinho e ela tinha vindo da Alemanha de férias. Reparei nela porque para além da visível simpatia, cantava muito bem. Sim, acho que uma das primeiras saídas foi para o Karaoke do extinto Bar Cruzeiro na Praia da Rocha. Começámos a conversar, como se se tratasse de um love interest e percebemos que tínhamos os mesmos gostos de música, de cinema, e perspectivávamos a vida de forma semelhante. Ela adorava R&B, apesar de ser branca como a cal, e em Portimão não conhecia absolutamente ninguém que gostasse ou conhecesse esse tipo de música. E lá íamos nós a pé para a praia a cantar "The Boy is Mine" da Brandy e Monica e a "All Cried Out" das Allure.
No final de Agosto, ela voltou para a Alemanha, qual paixão de Verão terminada pelo destino, mas continuámos a escrever cartas uma à outra. Isto foi antes de haver acesso generalizado à MTV e à Internet, por isso ela mandava-me cassetes com as músicas que iam saindo e lá em Colónia saía tudo antes do que cá.
Aos poucos foi esmorecendo, mas o carinho grande ficou.
Há uns meses encontrei-a na rua em Portimão e não nos víamos há quase 10 anos. Falámos como se nos tivéssemos visto no dia anterior. No meio da Rua do Comércio, ela contava-me que estava a viver em Portimão com o namorado e que as coisas não estavam muito bem. Eu contei-lhe que tinha acabado de regressar de Itália depois de 3 anos a viver lá. Demos um abraço forte, trocámos números e prometemos telefonar para combinar uma saída. Nunca aconteceu, mas penso nela sempre com carinho.
Hoje ao ouvir K-ci and Jojo lembrei-me dela e dos tempos em que as nossas maiores preocupações era se o bridge da música era num tom demasiado elevado.
Descobriu-se recentemente que o abraço é mais forte, mais envolvente e até mesmo mais erótico do que o beijo. Defende-o um livro publicado acabado de sair na Alemanha. Mas diga-se a verdade: eu sempre o soube.
Obviamente, não tenho nada contra o beijo. É de facto um meio de comunicação importante, pode ser até mesmo sublime. Mas tem muitas nuances: pode ser profundo, íntimo e sensual. Por outro lado, também pode ser ligeiro, superficial, quase formal. Estão a ver, aquelas tias de Cascais e que tantas vezes são retratadas no humor português: "Olá rica, como vai?" e mandam aqueles beijos, que em vez de serem nas bochechas, são no ar. Beijam-se sem acreditar muito nisso. Dá-se mais o valor à forma do que à substância, pois o beijo é variável, pode adaptar-se às circunstâncias, pode até mesmo mentir. Por alguma razão Judas denunciou Jesus Cristo com um beijo. Não foi com um simples apontar de dedos, nem um abraço. Foi com um beijo. Um beijo que mente.
O abraço não. Aquele contacto entre dois corpos diz sempre alguma coisa. Gosto muito de abraços porque é a maior demonstração de carinho que podemos ter em relação a uma outra pessoa. Não tenho medo de tocar no outro, de sentir o odor da sua pele. É também o único "cumprimento" em que podemos sentir o bater do coração do outro, sentir se bate tão rapidamente como o nosso.
Abraçar significa confiar no outro: é calor, empatia, afecto no estado puro, sem todas as implicações e complicações do sexo. Quando abraçamos alguém, destruímos as barreiras e tiramos a carapaça. Podemos descontrair-nos, deixando-nos apoiar sobre o outro, ou podemos suportar o outro, no maior instinto maternal possível.
Por isso, quando te abraçar, fica a saber que para mim, significas imenso.
Estava eu já eu debaixo do meu edredão, a regalar-me com alguns episódios de Sex and the City, quando toca o telefone. Era a minha amiga do coração, a Lu, a dizer-me para me despachar e irmos sair para "tomar café". Acho especialmente engraçada a expressão de "sair para tomar café", particularmente porque café é a única coisa que não se bebe e "sair", que a priori significaria ir num pé e voltar noutro, também é o maior eufemismo para o que na verdade acontece: sair às 22 e chegar às 5 da manhã a casa. Mas como se trata da Lúcia, que faz 1 noitada a sério quando o rei faz anos, acreditei mesmo que à meia-noite estaria em casa.
Fomos ao Musicais, havia noite de karaoke, arrisquei-me no rock com um What's up das 4 Non-Blondes, mas percebi que devo é ficar quietinha é no jazz e na bossa nova. Seguiu-se o Pavilhão Chinês: ainda era meia-noite e estava convencidíssima que a seguir ia logo para casa, por isso pedi um simples galão. A Lúcia acompanhou-me na castidade da bebida, enquanto as nossas acompanhantes - ambas madeirenses e com a gargalhada fácil - partiram para os Cosmopolitans.
Descemos até ao Bairro Alto e fui obrigada a provar as morangoskas famosas num bar que parece que vive à conta delas. Estou já eu na segunda - nesta altura, já tinha percebido que nunca iria para casa antes das 5 da manhã - quando vejo o Salvador dos Ídolos. Ora, todos devem saber quem é o rapazote, mas dou-vos um pequeno contexto:
- Cara de maluquinho, lunático direi.
- Esteve no programa, mas para ele aquilo era uma brincadeira. Não levava aquilo a sério, nem se levava a sério, o que é a coisa mais deliciosa de se ver.
- Era dos concorrentes mais naturalmente musicais que por lá passou. Tem um swing natural, sai-lhe Stevie Wonder da boca como sai asneira da boca da Paris Hilton.
- O público adorava-o principalmente pelo seu modo descontraído e pelos bitaites que mandava espontaneamente. Sai mais ou menos a meio do programa.
- Não tem uma voz de Freddie Mercury, mas é inteligente na forma como a utiliza e tem uma excelente cultura musical.
Ora, eu arrastei uma das madeirenses mais malucas (porque há coisas que nunca podem ser feitas sozinhas sob pena que passemos por loucas), chegámos perto dele e disse-lhe:
- Olá Salvador, o meu nome é Rafaela. O nome dela é Joana. E gostamos muito de ti.
O miúdo (sim, tem 19 anos mas parece ter 15), visivelmente embriagado ou tendo abusado de outras substâncias (não consigo perceber a diferença, desculpem-me) respondeu de forma simpática. Perguntei-lhe várias coisas sobre o facto de não ir em tournée com os colegas e a conversa fluiu atabalhoadamente, tendo em conta o seu estado de lucidez. No entanto, o ponto mais importante da conversa foi quando lhe falei da irmã. A irmã tem um mérito fabuloso.
A Luísa Sobral é daqueles casos engraçados. Participou na primeira edição do Ídolos. Era uma menina loirinha, de 16 anos, que ainda assim conquistou o 3º lugar, não sei como. Não dava um tostão por ela - nunca dei - mas a miúda geriu bem o talento que tinha. Foi para Boston estudar música para a prestigiada Berklee School. Compõe, toca viola e tem aquele timbre perfeito para bossa nova, como se uma tímida e jovem Gal Costa se tratasse.
Em breve, vai lançar o primeiro álbum de originais e tenho a certeza que vou adorar.
Tinha de partilhar convosco uma canção que a Luísa compôs e que oiço quase todos os dias sem enjoar. Temos artista, amigos!
A sério, seus grandes idiotas produtores fajutos??!!
E avisar as pessoas que pagaram 40 euros pelo bilhete, não?
Se não fosse eu a surfar na web a estas horas, amanhã metade da população lisboeta iria ver-me nestes lindos trajes quando chegasse ao Campo Pequeno, preparadíssima para o concerto do Mika e a cantar pela rua a plenos pulmões: WE ARE GOLDEN, WE ARE GOLDEN!!
Já viram a humilhação que eu ia passar, seus grandes tansos?
Can you hear me? I don't want this any more! I want to call it off! (Joel)
Vimos o filme em silêncio.
Os últimos minutos do filme que, habitualmente representam a redenção de uma história inteira, mantiveram-nos no auge de um sufocar de mil emoções.
Não houve redenção. Não houve um respiro fundo, nem um retomar do fôlego perdido pelo meio dos desencontros do Joel e da Clementine. Aquele nó na garganta prolongou-se durante muito tempo. No meu caso, dias.
Esta música do Beck arrancava o escudo do meu ser e entrava pela minha alma adentro sem ser convidada.
Saímos da sala. Percorremos, passo a passo, o centro de Leiria calados, sem dizer uma palavra, completamente absorvidos pelo que tínhamos acabado de presenciar. Perto de casa, ele quebrou o silêncio:
- Não estava preparado para ver este filme.
- Nem eu.
Dissemos boa noite e cada um seguiu o seu caminho.
Tu não sabes, mas guardo este momento da minha vida - 6 anos depois - como um dos mais especiais e tocantes. Conto esta história a toda a gente, assim, estás sempre comigo. Saudades de ti, Gabriel.
Na esperança de lhe explicar quem era, ainda tentei reproduzir vocalmente:
I tried to be like Grace Kelly
But all her looks were too sad...
e interrompi logo de seguida: "não, não isto é impossível de se cantar a capella".
Fiquei-me por um afinadinho:
Relax, take it eeeeeeeeeasy, for there is nothing that we can do.
Nada.
Nem sequer um olhar de iluminação, de reconhecimento da melodia, nada.
Depois, optei pela via simples:
- Professor, por favor, pense na cor mais forte que conseguir.
Está a sentir a cor na mais pura da sua essência? A energia vibrante e estimulante de uma juventude eufórica? A gargalhada, a loucura, o suor, o falsete?
Pois eu vou ver isto tudo materializado na forma de um ser humano.
Conheci o Karl Marx em Coimbra, por intermédio de uma amiga. É um rapaz cabo-verdiano, muito afável. A notícia do seu nome não me caiu como uma bomba. Eu já vinha preparada para aquilo. A minha amiga Joana já me havia sentado numa cadeira com muitos meses de antecedência, explicando:
- Vou apresentar-te um amigo que me é querido. Ele é muito simpático, faz parte do nosso grupo de jovens e costuma sair connosco. No entanto, queria pedir-te para não reagires quando ouvires o seu nome, porque é, digamos...pouco convencional.
- Oh Joana, não te preocupes. Eu já conheci um Aristides, um Oseias, um Wellington...estou habituada a nomes estranhos! Como se chama o teu amigo?
- Ele chama-se Karl Marx.
- AH AH AH!
-(silêncio)
- A sério Joana? Ele tem o nome do Karl Marx?
- Sim Rafa, chama-se assim.
- A sério?
- A sério.
- A sério?
- A sério.
- A sério?
- A sério.
- A sério?
- A sério.
Pronto, e assim me resignei à estranheza da coisa e preparei-me para conhecê-lo pessoalmente. É um rapaz bem parecido, ar de inteligente e bem-disposto. Vi-o só uma vez na vida, há cerca de 8 anos.
Porém, esta figura peculiar não ficou na minha memória por ter o nome de um socialista qualquer. Ficou na memória por ter dito que não gostava de música.
Pensei não ter percebido bem o que ele estava a dizer - talvez pudesse não apreciar um determinado estilo, sei lá - e pedi-lhe para reformular. Até que ele disse, palavra por palavra:
- Não gosto de música. Sou capaz de ficar anos sem ligar um rádio, sem ouvir uma única música.
Lembro-me de ter feito um sorriso amarelo e ter ficado a pensar que ele não batia bem da cachimónia.
Há certas canções que têm o condão de nos fazer rir desde o início ao fim. Sabemos que vamos pô-la a tocar e durante aqueles 3:43 minutos é felicidade garantida.
Durante um período da minha vida (2004) quando morava com a Sílvia em Leiria (beijinho para ti), acordava TODOS os dias com esta música a tocar no meu leitor de Cds. Ela, obviamente, tinha de gramar com este samba logo às 8 da manhã.
A Sílvia dizia-me que não havia música no mundo que a irritasse mais, mas recentemente confidenciou-me - quase envergonhada - que afinal "até gosta da música" e que quando a ouve fica logo bem-disposta.
Na realidade, não conheço melhor música para se ouvir quando se estamos apaixonados:
Quando a gente ama Faz qualquer loucura Só se pensa em cama Se perde a censura A alma desembesta É Festa! É Festa! É Festa! É Festa! Até quando o sol raiar...
Hoje voltei a ouvi-la. E voltei pensar na minha querida amiga e na vida boa que levávamos em Leiria.
Quem vai a Nova Iorque, não esquece o que lá viveu, em cada um dos segundos em que lá esteve.
Cada pessoa tem uma história para contar e episódios para partilhar. Há coisas que só nos saem da boca passados dois anos, quando numa segunda-feira à noite de websurfing acabamos por contar a uma amiga no Facebook.
Apresentou-se ao mundo com uma canção dançável e fácil de cantarolar, Put your Records On. Um clip alegre, muito veranil e colorido. Animou sem dúvida muitos corações durante o ano de 2006.
Quando comprei o álbum, abriu-se perante mim um novo universo. Uma nova sonoridade, sem ser apenas jazz, soul ou R&B, mas sendo uma mistura perfeita disso tudo, voou pela minha vida adentro. Associada a uma voz interessante, uma espécie de Macy Gray misturada com Sade, causou um impacto num ano cheio de novas vozes vindas de Inglaterra (Amy Winehouse, Adele, etc). A música da Corinne é suave, fazendo-nos recordar de imediato a música ambiente de uma infância feliz. Evoca imagens femininas e doces, como meninas que saltam ao elástico e riem ao ver passar o menino bonito do quarteirão na sua bicicleta azul.
Em 2007 vi-a ao vivo em Milão. Fiquei na primeira fila e fiquei encantada com esta menina-mulher. Lembro-me de ter referido na altura que ela é a personificação da doçura. Em tudo, nos gestos, na colocação da voz, na interacção com o público e tudo isto, claro, se reflecte na sua composição musical. Não chama a atenção pela sensualidade, mas encanta pela pose genuína, como se tivesse ido parar em cima do palco por acaso. Como se estivesse a assistir ao concerto na plateia e subisse ao palco porque o músico principal a convidou. E ali se apresenta com aquela timidez de novata, mas a certeza do talento que possui.
Hoje, tem 31 anos e muitos momentos de amargura em cima. O marido com quem estava casada há quase 10 anos, morreu. Esperou algum tempo e lança agora o novo álbum, 4 anos depois do primeiro. O primeiro single fala precisamente sobre esta perda. Nem toda a gente passou por uma morte de um marido, mas todos já perdemos um grande amor. Por isso, fica aqui a canção que me deixou boquiaberta do início ao fim.
A doçura permanece, mas agora o desencanto faz-lhe companhia.
A minha amiga Li tem uma beleza acima da média. Como isso não basta, foi agraciada pela mãe Natureza (e pela mãe Rosa) também com um belo cérebro e coração. Conheci a maior parte dos namorados da Li e, apesar de serem todos giros, sei que ela os escolhia pela inteligência. Um dia, conversando sobre as nossas (des)aventuras no campo do amor, ela disse-me naquele tom habitual de quem diz uma verdade incontestável:
- Amiga, nós não temos queda para burros!
Esta frase, apesar do seu tom jocoso, tem-nos acompanhado no decorrer dos anos e ilustra a forma como nos posicionamos perante os homens. Ainda hoje a mencionamos quando falamos de alguém em particular. A primeira relação séria que tive foi com uma pessoa com pouca ambição intelectual. Aos poucos este defeito foi-se tornando insuportável para mim pois não lido bem com a pequenez de espírito.
Ser-se burro é altamente subjectivo. Se à partida pode ser fácil excluir uma pessoa que dê erros ortográficos - que para mim, é o pior turn-off de todos * - a questão vai muito para além disso. O burro é aquele que acima de tudo não quer aprender. O burro não quer viajar, não ambiciona melhorar a sua vida, não quer ver o filme que ganhou o Óscar e não conhece o mundo onde vive. O burro não se interessa em saber a história de colonização do seu país, portanto quando vê um negro não sabe como reagir. Cala-se quando se fala da política do Médio Oriente pois prefere não ter uma opinião sobre as coisas do mundo. Ser burro é diferente do que não ter instrução: as pessoas mais geniais que conheço não têm um Doutoramento, e algumas nem passaram do 9º ano. A burrice não se avalia através de uma análise curricular, avalia-se pela atitude.
Se este tipo de exigência um dia poderá sair-me pela culatra?
Talvez. Mas o facto de saber o que não quero dá-me paz de espírito para continuar a minha viagem, mesmo sozinha.
* Aprendi a relativizar a questão dos erros quando vivi em Itália. Trabalhava e tinha uma vida social lá e, apesar de ser fluente em Italiano, nunca estudei gramática nem propriedade linguística, portanto podia acontecer que me saísse um erro ou outro ao escrever em italiano. E obviamente não queria que me excluíssem a priori por isso. Obviamente em Português é mais grave porque se trata da língua mãe da pessoa.
Nunca fui de escrever cartas a pessoas de uma outra dimensão. Refiro-me a cantores, jogadores de futebol ou actores. Bem, uma vez quando tinha acabado de aprender a escrever, tinha enviado uma carta ao Pai Natal. Mas como era uma criança independente já naqueles tempos, não dei aos meus pais. Que jeito, aquela conversa era entre mim e o Pai Natal, ora essa! Então lá coloquei o pedaço de papel arrancado da sebenta A5 dentro de um envelope, escrevi "Para: Pai Natal" e meti no marco do correio numa esquina da Rua D. Carlos I em Portimão. Mesmo ali à frente da Casa dos Pescadores, estão a ver? Pois, já sabia escrever mas não fazia ideia que existiam moradas e que as cartas precisavam de selos, por isso agora acredito que devo ter animado a tarde de algum carteiro, responsável pela recolha ali da zona.
Como dizia...nunca mandei cartas a pessoas que não conhecia pessoalmente. Sempre achei uma fantochada. Ora querem-me cá dizer que se tivesse mandado uma carta à Whitney Houston, quando eu gostava dela e tentava imitá-la na extensão das cinco escalas, ela ter-me-ia respondido? Nem pensar, sei muito bem que aquelas cartas ficariam perdidas num sítio qualquer. O meu pai sempre me ajudou a colocar os pés na terra em relação aos famosos. Diziam que eles eram todos maricas, assim não criava paixões platónicas à toa. O George Michael foi tiro em cheio, mas em relação ao Gary Barlow e ao Michael Bolton parece que lhe falhou o gaydar.
Ora, isto tudo a propósito de uma notícia que li hoje. Estava eu a almoçar e a ler o Jornal I quando deparo com a notícia que o Sr. Presidente Obama recebe milhares de cartas por dia, mas que responde a cerca de 15 cartas por semana. Comoveu-me ao ponto de ter uma lágrima a querer saltar - a sério Rafaela, sinceramente, choras a ler o jornal?? - a história de uma jovem que lhe escreveu a contar as agruras da sua vida, numa carta de três páginas.
Obama respondeu o seguinte:
Jennifer,
Thanks for the very kind and inspiring letter.
I know times are tough, but knowing there are folks out there like you and your husband give me confidence that things will keep getting better!
Se o Presidente dos Estados Unidos, que para além de ter milhares de republicanos chatos à perna, ter uma família para cuidar, os jogos de basquetebol para manter a forma e ainda um país para governar, arranja tempo para responder às cartas dos seus concidadãos, então há esperança no mundo.
...
Vou mandar hoje uma carta para o Gary Barlow, só para lhe dizer que ele foi muito importante na minha adolescência...e que sempre achei que ele era mais talentoso que o Robbie Williams.