Há uns dias comprei a Elle.
Adoro as revistas da época da rentrée. Parece que vêm com um novo fôlego, cheias de entusiasmo, artigos interessantes e uma lufada de ar fresco para soprar de vez com a silly season daqui para fora.
Comecei a ler a revista imbuída no espírito de descontracção de quem lê este tipo de revistas. Na página 80, a descontracção deu lugar à incredulidade. Depois à indignação. Telefonemas para cá, e-mails para lá, e afinal o assunto é mesmo chato, não é exagero da minha parte. Chato, para não dizer grave.
Num artigo sobre o novo tipo de mulher que está a ganhar espaço nas passerelles mundiais (manequins opostas à Kate Moss), o regresso das curvas e das formas, etecetera e tal, falam como sempre da Michelle Obama. As revistas de moda adoram a Michelle Obama. Porque o amarelo lhe fica bem, porque tem um ar atlético e principalmente por um grande factor: porque podia ser qualquer uma de nós.
Este artigo em geral revela vários erros de tradução, pesquisa pobre sobre o material sobre o qual se estava a escrever e escolhas linguísticas lamentáveis. Indignou-me particularmente o uso do termo "preta", visto que é um termo carregado de más vibrações, linguisticamente e socialmente falando.
Hoje escrevi um e-mail dirigido à jornalista que realizou o artigo. Mas não só a ela. Enviei também à directora, ao departamento da redacção e ao Correio do Leitor. Bolas, pensando bem agora, duvido que vá ganhar o Chanel n.º 5 que oferecem à melhor carta do mês.
No e-mail, eu disse o seguinte:
Ao cuidado da Ex.ma Sra. Marta Pablo, da Ex.ma Sra. Directora Fátima Cotta e da Redacção da Elle,
Como apreciadora da linha editorial da Elle há muitos anos e como leitora atenta, venho por este meio tecer alguns comentários relativamente a um artigo por si adaptado, na edição deste mês da mesma revista.
1 - O artigo que focava a nova feminilidade (páginas 78-80) foi escrito pela jornalista e editora de moda Robin Givhan e não pelo jornalista e editor de moda, como referiu a Sra. Marta Pablo. Uma breve pesquisa no Google, no sítio web Wikipedia ter-lhe-ia concedido imediatamente esta informação: é uma mulher, e não um homem.
2 - O artigo em questão trata-se visivelmente de uma tradução. Sabemos que uma tradução é má, quando conseguimos perceber que é uma tradução. E quando conseguimos “ler” o texto escrito na língua original por detrás do texto em português. Tendo em conta que a Sra. Marta Pablo não é tradutora, mas sim jornalista de moda, deveria das duas uma:
- ou ter confiado o trabalho de tradução/adaptação do artigo a um profissional da tradução;
- ou ter prestado mais atenção durante a sua tentativa de tradução.
Dou-lhe como exemplo a péssima tradução de middle aged woman, que a Sra. Marta Pablo traduziu como mulher de idade média. Ora, escusado será dizer que este termo não existe na língua portuguesa. Existiria eventualmente "mulher da Idade Média" (ou Idade Medieval) em que se refere a um período da História Mundial, situada entre o século V e o século XV. O termo correcto em português seria “mulher de meia idade”.
3 - Por último, a Sra. Marta Pablo por duas vezes usou, lamentavelmente, o termo “preto” no seu texto. Passo a citar:
Preta, 46 anos, Michelle Obama tem servido como um exemplo perfeito da verdadeira mulher de idade média americana.
e:
E porque é uma mulher preta de 46 anos, com um físico atlético, tem servido como um exemplo perfeito da verdadeira mulher de idade média e real consumidora.
Sendo uma consumidora acérrima de revistas, jornais e livros, leio milhares de páginas mensalmente. Nunca, repito, nunca li em algum lugar o termo “preta”, que certamente terá sido outra má tradução do inglês “black”. Qualquer pessoa minimamente informada, saberia que no mundo anglófono o termo "black” não tem o peso que o termo “preto” tem em português. A Sra. Marta Pablo, como jornalista, deveria saber que existe um longo caminho a percorrer entre a linguagem oral e a linguagem escrita. Deveria saber, sendo originária ou vivendo num país com um historial difícil de colonização, que o termo “preto” tem uma conotação negativa, pejorativa e humilhante. A Sra. Marta Pablo terá todo o direito de usar o termo "preto" na sua vida pessoal, em conversa com familiares e com amigos, mas nunca, nunca, nunca deverá usar esse termo numa revista que tem como alvo mulheres bem formadas e, pasme-se, algumas delas serão eventualmente pretas. O termo politicamente correcto e socialmente aceite é “negra”.
Espero que estas considerações sejam construtivas para que a Sra. Marta Pablo possa continuamente melhorar as suas competências jornalísticas tendo em conta os seguintes factores: investigação e sensibilidade.
Desejo a todos os destinatários do e-mail os melhores cumprimentos,
Nome e Apelido Comprido
P.S.: Sou tradutora e negra. Tal como a Michelle Obama e a própria Robin Givhan.