Querida Saia Amarela,
Nunca pensei que este dia pudesse chegar.
Comprei-te no ano de 2007 numa loja no fundo da Via Torino em Milão. Não era uma loja cara e não paguei mais do que 20 euros pelo teu simpático tecido e cor alegre.
Sempre ouvi dizer que a cor amarela não é para qualquer pessoa, por isso ao ver-te naquele cabide, com a tua ligeireza têxtil e os teus discretos folhos, eu soube instantaneamente que éramos feitas uma para a outra.
Animaste-me os últimos quatro Verões. Sim, tu foste saia de uma só estação. Nunca foste bengala de guarda-roupa, não senhor. Tu foste sempre a protagonista dos meus Verões. Combinava-te com tops castanhos, brancos, pretos, cai-cais, t-shirts justas, tops de alças de todos os tipos e feitios. Cheguei a comprar alguns tops que roçavam a overdose de cor, só porque no meio dos tons havia um amarelo pálido igualzinho ao teu. Por vezes adornava-te com lenços à cintura, quando achava que os teus folhos e cor maravilhosa não eram suficientes para criar um impacto quando saía contigo vestida.
Juntas fazíamos sucesso, eu nunca to disse, mas é verdade. Tu aguentaste comigo sempre cheia de orgulho e com a qualidade inicial, mesmo depois de tantas, tantas lavagens. Suportaste as minhas oscilações de peso caladinha no teu canto e sempre me caíste bem. O meu rabo contigo era admirável e agradecer-te-ei eternamente por isso. Quando não sabia o que vestir, tu e as minhas havaianas douradas faziam a toilette. E nunca me deixaram ficar mal.
Foste comigo a Barcelona, Valencia, Nice, Capri, Ibiza, Veneza e tantos outros lugares maravilhosos. Viveste à grande e à francesa, mas não estava preparada para te ver partir.
Nunca pensei que este dia pudesse chegar. Eu, que sempre te mimei com todos os cuidados, um dia vacilei. Deixei-te no Algarve e a minha rica mãe misturou-te com outras roupas carregadas de inveja da tua formosura. E de tinta azul. E assim veio o triste dia em que te tornaste esverdeada, à mercê de uma qualquer lingerie baratucha.
Nunca te cheguei a ver nesse lastimável estado, pois a minha rica mãe tomou as medidas necessárias para que tu fosses diligentemente eliminada. O meu coração enche-se de tristeza, porque nunca mais voltei a sentir o teu suave tecido. Nunca mais te apertei como o fiz em momentos de alegria ou de tensão. Mas deixo aqui uma das últimas fotografias tiradas juntas em Nice, no Verão passado. Irei sempre relembrar-te com carinho, não duvides disso.
Foi um prazer passar estes 4 anos contigo, Saia Amarela.
Até sempre.