Há uns tempos perguntava a alguém se sou uma pessoa
que tem ar de quem precisa de ser salva.
Muitas pessoas, pertencentes às mais diversas
religiões, denominações e credos, abordam-me nas rus como se com o meu olhar buscasse
qualquer tipo de redenção divina. No entanto, já há algum tempo que os evangelistas deste
mundo não me incomodavam…até hoje de manhã.
Estava eu na paragem de autocarros e vejo chegar
duas senhoras. Uma delas tinha dificuldades em caminhar, pelo que se sentou no
banco disponível, enquanto a outra ficou em pé. Cumprimentaram-me – o que é
muito raro nas minhas bandas, onde ninguém diz Bom Dia ou Boa Tarde - e eu
respondi com toda a educação, embora os meus olhos estivessem mais concentrados
nos e-mails matinais que lia no iPhone. A senhora que se sentou queixa-se das
dores e a outra responde com um automático “Mas a dor não vai durar para sempre
porque Deus vem resgatar-nos e tudo acabará em breve”.
Reparo que a senhora que estava em pé debruça-se
sobre a sua mala e eu já sabia o que dali vinha. Toda bem disposta, aproxima-se
de mim e entrega-me um folheto (ver foto acima). As Testemunhas de Jeová, como
grupo religioso, aborrecem-me particularmente. Não só por forçarem as pessoas
que estão com pressa a ouvi-los e não por quererem recrutar para o lado deles,
perdão, converter todos os ímpios deste mundo, como eu.
E agora conto-vos algo que ainda não sabem: eu
conheço bem os princípios das Testemunhas de Jeová, por tê-los estudado e por
ter tido uma amiga íntima que praticava esta religião. Ora, um dos princípios
mais ridículos (sim, todos já sabemos a história de recusarem terminantemente
as transfusões de sangue em caso de perigo de vida, nem sequer pretendo entrar
por aí) reside no facto de os Testemunhas acreditarem que apenas 144 mil pessoas serão salvas, ou seja, irão para o céu. Mais estranho ainda é considerarem
que a maioria destas 144 mil pessoas já morreram, pelo que apenas restam 11 mil
no planeta terra que irão ser salvos e, pasme-se, serão todos Testemunhas de
Jeová. Ora, não estando ligada a nenhuma religião neste momento, nada me
poderia soar pior: quer dizer que o facto de se “ser salvo” (seja lá o que isso
significa) obriga-me a estar ligada a uma religião em particular? Não acredito
mesmo.
Na paragem de autocarro e, como não sou uma morning
person, não me apeteceu estar a debater com a senhora acerca de todas estas
ideias. Aceitei o folheto, sorri ao ouvi-la dizer mecanicamente “é preciso decidir, é
preciso escolher quem queremos servir, antes que seja demasiado tarde” e voltei
as atenções para outro lado.
O autocarro entretanto chega e a outra senhora que
estava sentada, com muito esforço, levanta-se do banco. Antes de entrar, pergunto
à senhora se precisa de ajuda e, com o meu apoio, lá consegue entrar no
autocarro. Não resisto e dirijo-me à senhora evangelista, dizendo-lhe no meu tom mais educado e assertivo:
- É este tipo de coisas que me irá conceder uma
entrada no Céu. Infelizmente, não será o seu panfleto.