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Instagrameando

5.10.14



A coisa interessante sobre o Rio de Janeiro é a seguinte: se não acreditas em Deus, vais ao cimo do Pão de Açúcar, olhas para a vista panorâmica sobre a cidade e, muito provavelmente, depois de 5 minutos estás convencido que *isto* não é um acaso do Universo. 
Tão simples quanto isto: a beleza do Rio de Janeiro devolve-nos a fé que nem sequer sabíamos que tínhamos.

Ser contemporânea do Tim Maia. Ou a razão pela qual gostava de ter nascido no Brasil.

16.9.14


Os seis meses que passei no Rio de Janeiro contribuíram para uma pequena revolução dentro de mim: a adaptação a um novo contexto (tão mais diferente de Lisboa do que se possa pensar), o gradual processo de criação de intimidade com a cidade, o desenvolvimento de uma vida social e a sorte de surgirem algumas amizades, a aprendizagem diária de hábitos culturais (saborear uma paçoquinha à tarde, comer feijão preto em todas as refeições, beber cerveja sem grandes pesos na consciência, dar um pulo na praia antes de ir para o escritório). A imersão no Brasil era de tal forma total que não raras vezes me passava pela cabeça "gostava de ter nascido aqui". E pensar isto não implica desprimor pelo meu país ou pelas minhas raízes. Implica, sim, um amor tão grande pela cidade e cultura que me acolheu durante metade deste ano.

A música sempre ocupou um lugar fundamental na minha vida. Tendo um pai músico, cresci no meio de cordas de guitarra, discos de vinil e de boa música. Ainda assim, quando fui para o Brasil conhecia muito pouco acerca do Tim Maia. Umas 3 ou 4 canções, talvez. O Tim Maia não é um cantor de massas em Portugal - é um cantor de nicho, um cantor apreciado pelos hipsters e intelectualóides. No Brasil, o Tim Maia era um rei do povo. Apesar de ter feito muito sucesso com clássicos da música romântica, o Tim Maia pôs o Brasil a dançar desde os anos 70 até aos anos 90. Foi a grande voz do soul e do (verdadeiro) funk brasileiro e não fica ABSOLUTAMENTE NADA a dever a grandes vozes negras mundiais como o Otis Redding, Barry White ou Marvin Gaye.

Para além do Lucio Battisti (cantor italiano que morreu em 1998, aos 55 anos, precisamente com a mesma idade e no mesmo ano do que o Tim Maia), nunca ouvi falar de nenhum músico que reunisse tanto consenso: toda a gente, de qualquer classe social e de qualquer gosto musical, no Brasil lhe reconhece o talento, carisma e genialidade. Continua vivo. Houve um musical sobre a sua vida, de muito sucesso e que esteve anos em cena, houve reedições de discos, é comum ver concertos de músicos actuais brasileiros, em que estes cantam uma ou duas músicas do Tim. 

Depois de ouvir muitos álbuns, de ver muitos concertos online, de ler tudo o que havia para ler sobre o Tim, ganhei uma profunda admiração por esta figura de talento e que congregava tanto ódio e amor. Conhecido por ser um homem polémico, adepto da má vida, ter mau feitio para dar e vender, Tim Maia deixa um país inteiro de luto ao sentir-se mal num dos seus concertos. Toda a gente tem alguma coisa a dizer sobre ele, toda a gente tem uma história com alguma (ou várias) das suas músicas. No próximo mês estreia no Brasil o filme sobre a vida do Tim Maia. Não vou conseguir dormir enquanto não o vir. Com ele, aprendi o verdadeiro significado do conceito de referência cultural. E sinto-me sempre um bocadinho mais carioca quando estou a ouvir a sua música.

O fenómeno Slow Travel

24.8.14

Lençóis Maranhenses, Julho de 2014. Um dos paraísos do Brasil.

O desenvolvimento das companhias low-cost provocou uma grande revolução à vida dos europeus. Antigamente - e quando eu digo antigamente, não é há tanto tempo assim, mas essencialmente anos 90 e inícios da década de 2000 - quando alguém dizia que tinha ido a Londres ou Paris, exclamávamos um "Uau!". Nem todos podiam viajar e estávamos numa altura do mundo em que viajar era, realmente, uma actividade típica de uma classe privilegiada.
Poucos anos depois, a Ryanair e a Easyjet monopolizaram as viagens low-cost da Europa, trazendo novos conceitos e pequenas maravilhas como as "escapadelas de fim-de-semana" e as "mini-férias". Por exemplo, aproximou Itália de Portugal. Para nós, portugueses, ir a Roma ou Milão era um luxo, algo digno de admiração, mas os italianos nunca tinham ouvido falar de Portugal, quando, na realidade, estamos a uns ridículos 2500 km de distância. Eu sou do tempo (e esse tempo foi em 2006), em que quando eu dizia em plena cidade de Milão que era portuguesa, as pessoas gritavam entusiasmadas "Ah, Barcelona, que lindo o teu país". Isto aconteceu-me demasiadas vezes para ser considerado uma coincidência/ignorância casual.

Quem tem uns trocos e gosta de viajar, facilmente já teve a oportunidade de viajar até 5 ou 10 cidades europeias de topo. Conto-vos o que aconteceu comigo (e que é uma coisa triste de admitir): à medida que ia viajando, ia encontrando pontos semelhantes (demasiados) nas várias cidades europeias. Ao ponto de achar que era mais do mesmo. Claro que me divertia, acabei por ir muitas vezes a destinos repetidos (Londres, Nice, Nápoles, Roma, Paris, Barcelona), claro que via sempre coisas novas e diferentes. Mas muito sinceramente, uma viagem deixou de constituir uma emoção transcedental para mim, algo pelo qual eu esperasse ou sonhasse um ano inteiro. Tal como sou capaz de ficar uma semana a pensar no domingo, quando finalmente poderei comer um kalulu feito pela minha avó, mas não sonho com um hamburguer do McDonalds. A isto que nós, europeus, fazemos chama-se fast travel. Aquilo que eu estou a fazer com o meu projecto Home is where I am chama-se slow travel

Os viajantes ou turistas que praticam o slow travel escolhem viver o processo de viagem de uma forma mais tranquila. Não existem listas de pontos a visitar que devem ser verificados rigorosamente de três em três horas, não há obsessão com os guias da Lonely Planet, não há esta coisa de voltar para casa mais cansado do que quando se partiu. Os slow travellers, por ficarem mais tempo nos destinos que escolhem (atenção, podem ser apenas uma ou duas semanas), criam uma ligação à cidade onde estão. Estabelecem uma empatia com as rotinas que vão adquirindo. Ficam o tempo suficiente para reconhecer o rosto da pessoa que mora na porta do lado do apartamento que arrendaram ou para eleger um café preferido ao qual começam a ir todos os dias. O slow traveller provavelmente até se inscreve numa escola para tirar um curso de gastronomia ou de um idioma, estabelece um contacto real com os locais e não fica na redoma, onde a maior parte de nós quando viaja num fim-de-semana, fica enfiado. É bom viajar, seja em que termos for, mas melhor ainda é sentir que começamos a pertencer a um lugar, até então, estranho.

Estive no Rio de Janeiro seis meses. Não fiz tudo o que o Lonely Planet me disse que seria bom fazer. Não fui a todos os museus que gostaria de ter ido, não fui ver um jogo no Maracanã, não fui passar um fim-de-semana em Paraty, não fui a um ensaio de uma escola de samba. Mas nadei vezes sem conta no mar agitado de Ipanema, andei de bicicleta no calçadão, bebi cerveja e suco de melancia todos os dias, fiz amigos, gravei um videoclipe, conheci o Djavan, passei tardes na Livraria Travessa a escrever, fui ver um concerto do Jorge Ben (um dos melhores concertos da minha vida), comi feijão preto todos os dias, sambei com os cariocas, vi a Copa do Mundo de perto e sempre que viajava para outras cidades no Brasil, dizia sempre à boca cheia: "Não sou turista não, eu moro no Rio de Janeiro".

Já estou cá há três semanas, mas não sinto que regressei definitivamente do Rio. Parece que a qualquer momento vou voltar e só estou em Lisboa a passar uns dias. E a coisa bonita do slow travel é mesmo essa: a certeza de que os lugares do mundo que escolhemos como casa passam a ser nossos para sempre. E que é sempre positivo quando temos a oportunidade de tornar este mundo todo um bocadinho mais íntimo.

Estou por aqui

20.7.14





Lençóis Maranhenses. Ainda estou sem fôlego.

Quanto de mim ainda sobra cá dentro?

17.7.14

Houve aquele dia em que o meu pai foi a uma consulta com um tarólogo. Não era um tarólogo qualquer, era um amigo dele, que entretanto decidiu dedicar-se ao seu dom e conseguiu convencer o meu pai, no seu cepticismo natural de homem-racional-que-tenta-resolver-os-seus-próprios-problemas-sozinho, a ouvir o que ele tinha a dizer. Eu tinha 21 anos (foi, tipo, ontem) e estava quase a acabar a faculdade. Entre outras coisas, o tarólogo disse-lhe que eu ia viajar muito (na altura rimo-nos porque eu nunca tinha ido sequer a Badajoz) e que eu não iria acumular riqueza, mas que sabia viver muito bem. Na altura fiquei agradada com o vaticínio de que não é preciso ser rico para ser feliz e que viver bem já era uma coisa a atirar para o simpático.
Os anos passaram e aqui estou eu, a morar numa das cidades mais estupidamente bonitas do mundo, só porque me apetece. Podia, de facto, estar a viver bem. 
Estou no mercado laboral há 8 anos, já tive vários empregos, andei demasiados anos a conciliar a tradução com o emprego que tinha durante o dia, a fazer das 4 horas diárias de sono um hábito. Mas, mesmo nessa vida acelerada, eu conseguia manter o equilíbrio, conseguia sentar-me na cama, ao final da noite, e perguntar-me a mim própria: "Quanto de mim ainda sobra cá dentro?"
Por algum motivo, desde que me tornei freelancer, esse equilíbrio foi-se. Estou sempre a mil e parece que não avanço. Trabalho que me desunho e não acumulo riqueza. O trabalho controla a minha vida e tudo passa para segundo plano. E lá vou eu, andando e assobiando para o ar como se nada fosse. Fiu, fiuuu.
Hoje à noite entro em férias, mas tenho de levar o computador para terminar um último projecto até domingo. Não estou contente, não estou aliviada, não estou entusiasmada. Porque se me perguntasse agora "Quanto de mim ainda sobra cá dentro?", a resposta ia ser "Nada". Sou só cabelos e um cinzento andante. Mas vou tratar do assunto.

Buraco

10.7.14

São cinco meses de Brasil, cinco meses sem um porto de abrigo, cinco meses num limbo geográfico-emocional em que não pertenço integralmente ao lugar em que me encontro, nem pertenço ao lugar do qual parti. É estranho e engraçado. É estranho e libertador. É estranho e triste.
Em Outubro, quando comprei o meu bilhete para o Rio de Janeiro, tinha em mim toda a ingenuidade do mundo. Ah e tal, vou fazer isto e isto, depois quando voltar está tudo bem e tudo na mesma. Só que não. As vidas continuam, com ou sem mim, e fui forçada aprendi a reposicionar-me no mundo. Num mundo em que sou imprescindível para algumas pessoas e dispensável para outras.

Nunca pensei que alguns míseros meses fora (sim, porque na realidade é do que se trata, de uns míseros 5 meses que separam o dia em que fui embora, ainda que com uma data de regresso presente, do dia em que regressarei e este período temporal, na cronologia de uma vida, é realmente irrisório) fossem alterar tão profundamente a minha vida afectiva. Perdi uma amiga, sabem? Não aconteceu de uma forma dramática: não a apanhei na cama com o meu namorado, não andámos a fazer lavagem de roupa em praça pública, não houve nenhum escândalo ou desrespeito de maior. Simplesmente, apercebemo-nos que, com o passar do tempo, deixámos de estar do lado uma da outra. Deixámos de partilhar momentos felizes uma com a outra, deixámos de saber o que se passava, a um nível mais profundo, com a outra, deixámos de ter tempo para nos vermos e deixámos, essencialmente, de comunicar. E se, quando uma coisa destas acontece no seio de um casal, eles continuam a fingir que nada se passa por um bem maior, pela harmonia da família, pelo medo de estarem sozinhos, numa amizade torna-se mais difícil empurrar para debaixo do tapete. E, de acordo com a coragem de cada um, há duas opções: ou abordamos a situação no momento em que sentimos isso, ou esperamos até que a barriga da rã encha e rebente na nossa cara com um chorrilho de insultos e de discursos amargos. E, infelizmente, foi a última que aconteceu. Tentei lidar com isto com a maior graciosidade possível, respondendo da melhor forma que consegui, mas nunca obtive resposta. Mas toda a gente sabe que uma não-resposta é uma resposta, não é?

Depois de (demasiadas) semanas a pensar na morte da bezerra, a fustigar-me mentalmente, a reflectir no que poderia ter feito melhor, a sentir-me sufocada com a perspectiva de ter deixado de ter esta pessoa na minha vida, comecei hoje o meu luto. Uma amizade é bonita enquanto nos sentirmos felizes e sortudos por aquela pessoa, no meio de 7 mil milhões, ter escolhido fazer parte da nossa vida. Uma amizade é bonita quando nos ajuda a crescer enquanto gente, apontando-nos o dedo com amor e dizendo-nos que esse não é o caminho. Uma amizade é bonita quando sabemos que, mesmo quando escorregamos, vai sempre existir um abraço. 

Terminar uma amizade aos trinta anos não é fácil. Conforta-me saber que partilhamos um passado longo e bonito. E a esperança de que, quando se abre um espaço tão grande no nosso coração, é porque algo igualmente grande está prontinho para entrar. Ou não, porque já não tenho idade para ilusões.


5 anos sem Michael Jackson

25.6.14

Não gosto quando me dizem que não se deve comparar a morte de uma celebridade, de um artista com a morte de uma pessoa da vida real. Ambas as situações comportam um determinado nível de dor e cabe-nos respeitar a sensibilidade de cada um. Celebridade ou não, ela é - pasme-se! - uma pessoa. Não a conhecemos de lado nenhum, é certo. Mas um artista que apreciamos pode ter uma profunda influência na nossa vida, provavelmente muito mais do que a nossa vizinha do terceiro andar que morreu no ano passado ou do que o nosso primo, com quem passámos dois ou três Natais nos tempos de criança e nunca mais o vimos, que acabou de falecer. Obviamente não falo da dor de perder um melhor amigo, o pai ou o namorado, porque são casos de dor incomportável. Mas uma coisa é certa: a dor da perda é directamente proporcional à familiaridade que se tem em relação a alguém e a influência que essa pessoa exerce sobre nós. Celebridade ou pessoa comum.

Quando o Michael Jackson morreu, fiquei profundamente triste. Não era uma fã devota, mas o Michael Jackson foi o grande artista da minha geração. Desde que nasci, sempre ouvi falar dele, habituei-me ao estilo musical, às polémicas, ao sucesso e, para mim, ele era o símbolo da música, do estrelato e do talento. De repente, isso deixou de existir. Um mito desapareceu e eu tive de aprender a viver a minha vida sem ele. Sem a expectativa de saber o que ele iria fazer no ano seguinte. Se iria fazer o tão aguardado come-back. Se se iria provar que ele era um Peter Pan dos tempos modernos e que, afinal, nunca abusou de criança nenhuma. Se ele algum dia iria explicar numa entrevista séria porque ficou branco. 

A morte do Michael Jackson, esperada para muitos, significou para mim o fim de uma era. Uma era mais simples. Tempos em que a música era feita de genialidade e não de instantaneidade.
Estamos há cinco anos sem o Michael Jackson. E continua a custar-me horrores.

Salvador, o berço

22.6.14
No início de Junho fui à Bahia. Comprei uma passagem em cima da hora por 250 reais (cerca de 80 euros) e fui com a minha amiga Susana, que tinha vindo visitar-me ao Rio. 
Apesar de não ficar muito distante do Rio (a 1200 km, que na prática, é mais do que norte a sul de Portugal), a Bahia já fica no Nordeste do Brasil, assumindo algumas características que temos em mente acerca dos estados nordestinos: águas cálidas, calor permanente, inexistência do Inverno, bom peixe e marisco, etc. Salvador é a terceira cidade mais populosa do Brasil, depois de São Paulo e do Rio, com 3 milhões de pessoas.
O que sempre me fascinou em Salvador é o mesmo tipo de coisa que sempre me fascinou em Nápoles (aliás, as duas cidades têm muitos pontos comuns): a genuinidade. A Bahia contribuiu, mais do que qualquer outro estado, para o património cultural brasileiro: trouxe-nos Jorge Amado (a Gabriela e a Tieta do Agreste), trouxe-nos o Caetano Veloso, o Gilberto Gil, a Maria Bethânia, a Gal Costa, a Simone, a Astrud Gilberto, o Dorival Caymmi, enfim, 90% dos músicos brasileiros mais respeitados. Mais recentemente trouxe também a Ivete Sangalo, mas como eu não gosto de axé, não me debruço perante ela. Mas sim, ela é um mito. Numa das viagens de táxi que fiz, o taxista fez questão de me dizer onde é que a Ivete morava. 
Salvador é essencialmente Angola. Com cerca de 80% de negros, existe aquela forte influência africana em tudo, desde os ritmos (cadenciados da música e lentos da cidade) até à comida, em que o óleo de dendê (ou o óleo de palma, que se usa nas moambas e kalulus desta vida) é o ingrediente principal.
Gostei muito do Pelourinho, o centro histórico de Salvador, e gostei de caminhar pela zona da Barra, onde fica o Morro do Cristo, algumas praias urbanas e o farol. É bonita, colorida, confusa, alegre. Tal como eu esperava.
Acabei por ficar apenas dois dias em Salvador, porque fui a Morro de São Paulo nos entretantos (fiquei 3 dias). Mas Salvador entrou no meu coração e vou tentar voltar ainda nestas próximas semanas. Tentei dar algum uso à Canon, pelo que ficam aqui algumas imagens.


Um detalhe do hotel

O pequeno-almoço, muita fruta e muita doçaria. Eu sou a pessoa mais esquisita do mundo (merecia ser magra por isso), por isso contentei-me com ovos mexidos e com ananás. E é ananás a sério!

Este é o Farol da Barra, na orla de Salvador. Há sempre algo de mágico nos faróis, não é?


Um bocadinho de arte contemporânea para inglês 
(e a multidão de turistas que vêm para a copa) ver.


Caminhando pela orla, vamos ter ao Morro do Cristo, que é aquele monte iluminado de verde ali ao fundo. E tem um mini-Cristo-Rei. Mas aquele monte, a vista sobre o mar, a relva perfeita...
fizeram desse lugar o meu preferido de Salvador.

Garotos baianos

O Morro do Cristo


A casa de Iemanjá

Nunca tive uma adoração especial por gatos, por isso a história com este gato marcou-me. 
Estava o bichano a dormir neste muro sobre o mar e nós sentámo-nos lá a descansar. O gato veio na nossa direcção, sentou-se no meu colo, acariciámo-nos mutuamente, ronronou nos meus braços e ficou ali junto a nós durante uma meia-hora, até que decidimos ir embora. Foi tudo muito estranho. A Susana e eu ficámos totalmente convencidas que não era um gato vulgar.
Reparem só no ar majestoso dele.

Baianas em ponto pequeno (as baianas em ponto grande pediram-me 20 reais para as fotografar!)

Vista do Elevador Lacerda, que liga a parte alta à parte baixa da cidade. 
Aquele edifício amarelo é o Mercado Modelo, uma espécie de feira local, com restaurantes, bancas de roupa, artesanato e coisas assim.


A moqueca de camarão entrou directamente para o meu TOP3 de comidas preferidas de sempre. Minha. Nossa. Senhora.

Sobreviver, viver e aproveitar à grande. Qual dos três fazemos?

11.6.14

Um dos temas que mais me interessa, em que mais invisto tempo a pesquisar, a ler, é o equilíbrio entre vida e trabalho, ou o já cunhado conceito “work-life balance”. Muito resumidamente, sou péssima nisso. Péssima. Passo dias a fio, fins-de-semana incluídos (os freelancers sabem que ter um fim-de-semana é um luxo a que, muitas vezes, não nos podemos dar), a trabalhar, a dormir pouco, a dedicar pouco tempo a mimar-me (cozinhar refeições saudáveis, fazer exercício, pintar as unhas, hidratar o cabelo – algo que eu faço, tipo, uma vez por ano, e ai da minha cabeleireira que ouça isto!) e à vida social. Deste estado de quase-afogamento, passo ao estado de letargia total, em que fico dois dias parada, sem fazer absolutamente nada, apenas a ver séries de televisão ou a ir jantar a restaurantes simpáticos. E justifico este hedonismo como “eu mereço” ou “eu estava a precisar”, deixando todos os meus projectos pessoais na to-do list que continua a aumentar, semanalmente. Por isso eu vivo exclusivamente entre os picos de trabalhos, que mal me deixam tempo e energia para respirar, e os momentos de total far niente, mas que está longe de ser dolce, porque tenho sentimentos de culpa perante ele.
Uma das razões que me fez vir para o Rio de Janeiro foi precisamente para dar a volta a esta questão. Eu pensei que, estando numa cidade que tinha estado na minha cabeça e no meu coração durante estes nove anos (desde que vivi cá por 3 meses em 2004), que me sentiria inspirada a aproveitar melhor o meu tempo. A dedicar tempo para o trabalho, não demasiado, mas o tempo suficiente para completar os meus projectos e gerir a minha actividade profissional, e a aproveitar o tempo livre para conhecer os meandros da cidade, para desenvolver relações com outras pessoas, para me deixar envolver pela cidade. E chego a este momento, em que faltam apenas dois meses para me ir embora, e começo a pensar que apenas vivi (e eu sei, eu sei que já não é nada mau), mas que não aproveitei a sério.

A coisa boa é que, nestas coisas da vida, todos os dias são bons para começarmos um novo plano, para desenvolvermos uma nova atitude e para tomarmos novas decisões. Acabei de tomar a minha: se prepare Rio, porque eu vou lhe usar.

O apego às coisas

22.5.14



Começo por confessar-vos já uma coisa: eu gosto de coisas. Gosto mesmo. Gosto de comprar jornais e revistas, acumulá-los na mesa da sala ou no parapeito da janela até ter uma manhã inteira sem nada para fazer, para poder sentar-me no tapete vermelho felpudo da sala e folheá-lhos um a um. Gosto do meu tapete vermelho felpudo do Ikea, que custou 45 euros e que a Sílvia me obrigou a comprar porque ela diz que um tapete dá personalidade a uma casa. Gosto do meu jarro de barro que eu comprei àquele indiano simpático no Largo de São Cristóvão, roxo às riscas brancas, que faz um pendant curioso com um tabuleiro pequenino roxo às bolinhas brancas. Gosto de olhar para a minha estante, iluminada por um fio de bolas de linho, em tons amarelo e mostarda, de ver a minha colecção dos livros de Saramago que ocupava metade de uma prateleira inteira. Gosto da minha máquina de escrever azul clarinha, que foi o meu presente de Natal de há dois anos. Gosto da minha arca, que me ofereceram os ex-colegas de trabalho e na qual enfio atabalhoadamente as coisas que não têm arrumação quando surgem visitas inesperadas. Tenho coisas bonitas, sem nenhuma relação ou harmonia entre elas (como aquelas pessoas que só têm tudo em cor bege, ou em branco, ou em preto). Não, há dias em que acho que o vermelho é a melhor cor do mundo, outros em que só consigo digerir o preto, outros em que o laranja me enche as medidas e outros em que o verde e o lilás andam de mãos dadas. E tenho muitas coisas, em todas as cores e estilos possíveis.
Neste momento estas coisas bonitas estão enfiadas todas em caixas e estão espalhadas por 6 casas em Lisboa e eu vivo com uma mala de 30 kg, cujo metade do conteúdo ainda está dentro da mala. Sei que não preciso de muito mais, eu sei, mas ando a ressacar o simples estar no meio de um ambiente composto pelos meus objectos. Sei que é uma questão de tempo e que esta sensação de despertença vai ser atenuada. Mas custa horrores.

Odisseando e o Trio Maravilha

21.5.14

Eu acho inacreditável ter leitores que me seguem desde a Pré-História, mais propriamente, desde 2006 ou 2007. Que continuam aqui a vir, que aguentam pacientemente as minhas faltas de inspiração para escrever, que me escrevem e-mails para voltar, que me repreendem e dizem para "deixar de ser preguiçosa" e que me fazem sempre ter vontade de aqui voltar e de dar uma nova oportunidade ao blogue. Agradeço-vos, mesmo muito. A vós todos, 146 leitores diários, cujo impacto na minha vida é impossível de medir.

Até há bem pouco tempo não sabia quem era a Filipa, conhecida neste mundo dos blogues e do design como a Bond Girl. Já se sabe que daqui nunca vem um Óscar, mas vem sempre coisa boa. E a verdade é que a Filipa mudou um bocadinho a minha vida. Espreitei o blogue dela, o portfólio, vi que faz tanta coisa bonita e quis logo conversar com ela para ver se me poderia ajudar. Não só me está a ajudar com o blogue, como me vai ajudar com outros projectos paralelos também. Com ela, tudo se pode fazer e esta mentalidade inspira-me muito. 

A Filipa achou por bem manter as ilustrações da minha querida amiga Renée (Oi, Renée!) e construir em torno delas um design clean, mas colorido. Reuniu as tropas e, por tropas, refiro-me à Sílvia Silva do Muda de Página, que vale por muitas, e que se responsabilizou por toda a implementação técnica e adaptação do código do blogue.

Estas três meninas tornaram o Odisseando uma casa para onde vou querer sempre voltar. Espero que vocês também voltem. 

A minha vista preferida

20.5.14

Nada bate a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Planos gorados

5.5.14




A ideia em si era boa. Deixar a minha casa da Mouraria, cujo sofá já tinha ganho a forma do meu corpo, afastar-me por uns tempos das ruas que conhecia de olhos fechados, dos amigos que me davam a mão e se passeavam comigo por esta vida, da familiaridade do meu contexto. Não sendo um plano definitivo (ir e nunca mais voltar, nem nesta vida, nem nas próximas), fiz um esforço para retirar daqui todo o drama possível. Não fiz festa de despedida, acenei ao de leve às pessoas, fiz a mala e pus-me a caminho.
A ideia, volto a repetir, era boa. Iria ficar 3 meses em cada cidade, mas sempre quis assegurar a mim própria que teria flexibilidade para fazer o que me apetecesse. Não assinei contratos, não me comprometi com ninguém, por isso poderia ficar numa das cidades apenas 2 meses, se realmente estivesse em sofrimento, ou 6 meses, caso estivesse a gostar muito. Ou para sempre, que isto nunca se sabe. E aconteceu eu decidir ficar os 6 meses no Rio. O plano inicial de 3 meses permitia-me conhecer uma cidade e os costumes locais, fazer bons contactos, criar hábitos diários diferentes - acreditem, esta mudança de hábitos é um excelente exercício de vida - e, se tivesse sorte, fazer alguns amigos. Nesses 3 meses, muito dificilmente se criam laços para uma vida inteira, daqueles difíceis de cortar, por isso o momento da partida não seria à partida difícil. Desculpem-me a redundância.
Mas, em 6 meses, o caso pode mudar de figura. Os amigos que entretanto fiz tornam-se pessoas fundamentais na minha vida. As rotinas que criei vão tornar-se parte de quem eu sou. Não vou conceber a possibilidade de não sair para passear no calçadão quando me apetecer. Não vou achar graça a um prato de comida sem o feijão preto ali do lado. Não vou conseguir imaginar o que é deixar de vir para o escritório na Gávea que se tornou uma segunda casa para mim. Não sei o que vai ser de mim quando o Brasil me estiver totalmente entranhado na pele. 
É a primeira de cinco cidades e já comecei a sofrer. Isto vai ser bonito, vai.

Búzios

21.4.14


Foi um dia feio. Mas deu fotos bonitas.

10 coisas que podem acontecer em 10 semanas no Rio de Janeiro

15.4.14

Fotografia: Pedro Moura Pinheiro 
(fotógrafo carioca-lisboeta)


Não vale a pena adiar mais esta conversa. Os dias vão passando e eu vou esperando pelo momento certo em que me sento ao computador, cheia de inspiração, munida das melhores fotografias do mundo para vos impressionar, loquaz como nunca dantes visto. Ou então, posso simplesmente olhar para o calendário, ganhar vergonha na cara por ter deixado passar tanto tempo (10 semanas) até fazer um post decente sobre a minha chegada ao Rio de Janeiro e pôr-me mas é a escrever. Então, tendo em conta que os especialistas em blogues afirmam que todos gostam de listas, aqui vai uma lista de coisas que podem acontecer no Rio de Janeiro em 10 semanas.


1 - Podes decidir inicialmente ficar por 3 meses, mas ao fim da segunda semana, decides que vais precisar de outros 3 meses.
Pois foi. Embora gostasse muito de regressar no final de Abril a Lisboa (teria o casamento da minha doce amiga Sílvia, teria uma série de aniversários de 3 boas amigas, teria uma conferência internacional de tradução em Budapeste, teria o mês de Maio na Europa, que é o mês mais bonito de sempre), dei por mim a sentir-me sufocada com as poucas semanas que me restavam no Rio de Janeiro. E os lugares que me faltavam conhecer. E as pessoas com quem eu ainda tinha de me cruzar. E com as frutas exóticas que eu ainda tinha de provar. E pronto, abri os cordões à bolsa e larguei a módica quantia de 349 euros que a TAP me pede de penalização e mudança do dia de passagem. Tenho mais 4 meses pela frente e isso deixa-me mais tranquila.

2 - Compreendes que quando ao lado de uma sanita pública estiver um cartaz a dizer "por favor, não deite papel para o vaso", é porque é mesmo verdade.
Acho melhor não desenvolver muito isto.

3 - Vais ao concerto d'O cantor brasileiro por excelência, Jorge Ben, e pensas por uns instantes que é uma pena não teres nascido no Brasil.
Isto foi na sexta-feira passada, no Circo Voador, uma casa de espectáculos histórica no Rio. Andei uma semana a dizer às pessoas «ahhhhh, na sexta vou ver o Jorge Ben no Disco Voador!!!». Até que alguém me bateu levemente no ombro e disse: «Rafa, é "Circo" Voador.». Tá.
Foi um dos melhores concertos que vi na vida, cheio de alegria, dança, canto e cerveja. O público brasileiro é o melhor do mundo. Vibram com cada nota, dá gosto de ver.

4 - Dás por ti a andar pela rua, parar, voltar para trás um bocadinho e ficar a olhar para a vista. Ou para algum homem demasiado bonito que passou.
Há vistas maravilhosas no Rio de Janeiro. Sou particularmente fã da vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Ficar preso no trânsito naquela zona é um mal menor. E em relação aos homens...digo-vos já que existem mais homens bonitos do que mulheres bonitas. A parte chata para mim é que o Rio é a grande meca do universo gay. Mas as vistas ficam lavadas.

5 - Passas 30 anos da tua vida sem gostar de melancia e depois chegas cá e achas que o suco de melancia, que tem 90 calorias, é a melhor coisa que existe.
Suco de melancia com uma raspa de gengibre. Hello, vida saudável.

6 - Pensas que é uma boa ideia começar a correr no calçadão.
Assim que cheguei ao Rio e fui pela primeira vez ao calçadão, pensei em como seria bom ganhar o hábito de corrida. Logo ali, a cinco minutos de casa, com aquela vista ao fundo, juntamente aos vários milhares de pessoas que por ali andam. Mas a ideia passou-me rapidamente e percebi que sentar-me numa esplanada a ver aquela gente a passar também é giro.

7 - Perdes 5 quilos. Tau. Só o facto de teres descido para o hemisfério cá de baixo. Deve ser a gravidade.
Pesei-me na semana passada, dia em que comecei a fazer dieta a sério (pronto, estou aqui a comprometer-me publicamente convosco) e tal não foi o meu espanto quando vi menos cinco quilos em relação a Janeiro. Isto a beber cerveja quase todos os dias e a comer feijão. Mas verdade que se lhe diga: deixei naturalmente de comer pão e como só arroz integral (obrigada, Claudinha, a chef do escritório onde trabalho). Isso e o calor-sauna de Fevereiro.

8 - Perguntas-te como é que conseguiste viver toda uma vida sem comer feijão preto todos os dias.
Carioca come feijão em todas as refeições. É certinho e direitinho. Está lá sempre, seja qual for o prato principal. Eu adoro, faz-me sentir feliz. Não dá é para trabalhar muito bem a seguir.

9 - Ganhas intimidade com o vocabulário eufemístico carioca.
Percebes que quando os cariocas te dizem "Vamos marcar, sim", ou "Está combinado", ou "Vou aparecer", isso não quer dizer absolutamente nada. É mesmo muito difícil fazer planos com um carioca. Não me parece um bom parceiro no crime também. Era eu a aparecer no banco, no dia previsto para o assalto, e ficar pendurada. Não se faz.

10 - Seres toda a vida conhecida como uma pés-de-chumbo e num belo dia, quando estás menos à espera, começas a sambar e todos os cariocas dizem "eba, você tá sambando".
É um momento mágico na vida de uma pés-de-chumbo.


Jorge Ben e o seu Fio Maravilha

10.4.14


Em mil novecentos e troca-o-passo, num jogo contra o nosso Benfica (digo "nosso" por ser português, vamos lá ter calminha, porque eu continuo a ser sportinguista, sim?) um jogador do Flamengo chamado João Batista de Sales ganha a alcunha de Fio Maravilha, após o golo da vitória. Todas as pessoas que viram o jogo dizem que João, não só foi o protagonista do jogo, como fez jogadas inesquecíveis. 
Um dos maiores artistas do Brasil faz-lhe uma homenagem, focando as proezas do jogador e beleza do jogo em questão, em versos como: 

Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa
E a magnética agradecida se encantava
Fio maravilha, nós gostamos de você 
Fio maravilha, faz mais um pra gente vê 
E novamente ele chegou com inspiração
Com muito amor, com emoção, com explosão e gol 
Sacudindo a torcida aos 33 minutos do segundo tempo
Depois de fazer uma jogada celestial em gol
Tabelou, driblou dois zagueiros
Deu um toque driblou o goleiro
Só não entrou com bola e tudo
Porque teve humildade em gol (...) 

A canção Fio Maravilha tornou-se uma das canções mais famosas de Jorge Ben, tendo a capacidade de imortalizar esse jogador como nenhum outro na história. Não, o Rui Veloso a falar do Jardel não conta. Influenciado por um advogado idiota e com vontade de fazer uns trocos, Fio Maravilha resolve processar Jorge Ben pelo uso indevido e não autorizado do seu nome numa música - novamente, hit nacional. Jorge Ben foi obrigado legalmente a mudar a música para Filho Maravilha, que é a versão que muitos de nós conhecemos. Jorge Ben, desiludido com esta atitude merdosa, deixou de cantar a música durante vários anos, até que em 2007, Fio Maravilha disse que se tratava de um mal-entendido e que autorizava Jorge Ben a cantar a música original. Olha, foda-se para isto, é o que eu digo! 
Isto tudo para vos dizer que amanhã vou ver um show do Jorge Ben e estou a ver se consigo decorar todas as músicas de 50 anos de carreira numa tarde.

Ode a Copacabana

3.4.14

Há dois meses, quando assentei arraiais em Copacabana, apanhei um grande choque. Apesar de estar a morar a duas quadras da praia e de isso supostamente ser uma coisa boa, o bairro não tem glamour absolutamente nenhum. Pensava eu que Copacabana era um paraíso de gentes bonitas e elegantes, mulheres chiques com chapéus de abas tão grandes que cobrem o rosto e apenas deixam antever um sorriso espontâneo e fresco, homens com corpos trabalhados e com barrigas tão definidas nas quais podemos ralar cenoura, com calças de linho brancas e t-shirts coloridas. Sou uma moça com tendência para sonhar, de facto. Copacabana é suja e alegre, mas não tem elegância. As putas e os travestis misturam-se estranha e harmoniosamente com as senhoras idosas endinheiradas que passeiam os cães, os únicos seres vivos que as acompanham nos seus dias. Pessoas que pegam no batente às 6 da manhã, outras que vivem de rendas, outras que treinam obsessivamente na BodyTech, o ginásio onde se paga quase 400 reais por mês - em Copacabana vê-se de tudo e eu aprendi a adorar essa manta de retalhos. Tive de mudar de casa devido à prolongação da minha estadia no Brasil e queria continuar em Copacabana, porque sim, porque também eu sou uma manta de retalhos (pai angolano, mãe portuguesa, metade de um coração em Itália e um nascimento perfeito entre dois signos). Mas a Nossa Senhora do Apartamentinho (aquela que protege todos aqueles que procuram casa) assim não quis e hoje mudo-me para Ipanema. Despeço-me agora de "Copabacana" com uma pontinha de tristeza. Mas mais triste é ficar parado, por isso vamo que vamo, que é o brasileiro para "ala que se faz tarde".

Taxistas cariocas (parte IV)

1.4.14

Depois de centenas de viagens de táxi feitas na vida, só faltava mesmo este: o taxista mágico. 
Não, ele não me fez desaparecer, não me levou para a cama sem eu dar conta, nem se transformou em Michael Fassbender com um rápido estalar de dedos. Simplesmente, mal entrei no carro, pediu-me para olhar para a mão dele que, primeiro estava aberta, depois fechada, e aos poucos foi empurrando com o dedo da outra mão um saco de plástico da mão que estava fechada. Depois mostrou-me esta caixa: ele abria-a apenas com uma mão e a tampa deslizava como manteiga. De seguida, pediu-me para que a abrisse. Obviamente havia ali algum truque qualquer e não consegui sequer que a tampa se movesse um milímetro. Perguntei-lhe quantas pessoas conseguiram abrir a caixa e ele disse-me "duas em cem". Eu estava tão animada com aquela corrida de táxi surreal que só dizia UAU e BRAVO a todos os truques. 
Mas, lá no fundo, eu só conseguia pensar que encontrei um taxista mágico e que isso não acontece muitas vezes. Talvez uma em mil. Por isso, fui eu quem ficou a ganhar.

Os brasileiros e a música

17.3.14


Se há coisa que tenho observado nestas semanas é que o brasileiro é muito musical. E não me refiro a um adjectivo simpático para me referir à personalidade com ginga natural. Não, estou a ser o mais literal possível. O brasileiro gosta de música, gosta de cantar, gosta de tocar, gosta de batuque.
Escolhi como escritório um espaço de coworking na Gávea (o Templo), espaço particularmente interessante pela diversidade de pessoas com quem partilho os meus dias. Todas as quintas-feiras existe um happy hour, noite em que se bebe muita cerveja gelada e se canta muito. Eu, que cresci com isto, com o meu pai a pegar na viola todos os dias em casa e cantar-me um pagode ou uma balada do Caetano, para mim é uma noite em família. Às quintas-feiras, o pessoal junta-se à volta do Floriano e do Herman (o CEO) que tocam viola lindamente e toda a gente participa, toda a gente canta, toda a gente dança e toda a gente vibra. Cantam clássicos brasileiros, desde pagodes e sambas famosos, passando por baladas e forrós. Não é estranho ver o nosso colega que põe cascalho dentro de uma garrafa de plástico para improvisar um instrumento de percussão. Ou o outro que batuca num pandeiro. Ou as palmas sincronizadas. Ou as vozes afinadas. Em Portugal isto não existe. Não desta forma. Se vos perguntar quando foi a última vez que estiveram à volta de alguém a tocar viola e a cantar o Dunas dos GNR certamente terá sido quando eram adolescentes. Num acampamento. Ou num concerto qualquer. Se quero com isto dizer que em Portugal não existe amor à música? Não, claro que existe. Mas é um amor individual, privado e quase egoísta. No Brasil o amor à música é algo social, algo que tem obrigatoriamente de ser partilhado. Mais ou menos como o ar.

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