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17.12.14
No meio de uma dor de dentes que teima em não passar, estou a tentar aceitar que vou voltar mesmo para Lisboa no dia 6 de Janeiro. E vocês perguntar-me-ão: «Sim, mas qual é o drama? Não era essa a ideia original?». Era. De facto, era. Mas acho que só comecei a aproveitar isto a sério nas últimas 2, 3 semanas. Comecei a ir a vários eventos de networking, workshops, meet-ups (coisas que descobri nas aplicações EventBrite e no Meetup, por exemplo), comecei a conhecer mais pessoas, comecei a sentir as vantagens reais e concretas de estar numa cidade como Nova Iorque.
Um pouco graças a um mini-drama pessoal desenvolvi relações próximas com as minhas duas colegas de casa, a Kay e a Sandy. Tornaram-se boas companhias e boas confidentes. E não consigo ainda conceber a ideia de quebrar tudo isto, quebrar estes laços, com as pessoas e com a cidade.
Consola-me o facto de que Janeiro vai ser um mês para colocar tudo em perspectiva, para preparar a minha partida para Telavive, para onde vou em Fevereiro, e que vou estar um pouco com a minha gente. Vai ser bom. É porque não tinha de ser. [Repetir até entrar na cabeça.]

O dia em que uma desvitalização decidiu a minha vida

16.12.14
Sou uma moça saudável. Podia ter uns tornozelos mais estáveis, podia ter uns quilinhos a menos, podia ter uma visão melhor, mas no geral sou uma pessoa saudável: colesterol e glicemia nos valores certos, análises sempre bonitas e direitinhas, boa flexibilidade, força, tensão arterial perfeita. Por isso, a ideia de ir viajar pelo mundo e não ter um médico à mão não era coisa que me assustasse à partida. Assim como assim, nos últimos dois anos fui ao otorrino umas 28 vezes por estar sempre constipada mas descobri - durante esta viagem - que era a minha casa da Mouraria que me estava a matar (oi, humidade).
Ora, partindo do princípio que não ando bêbeda em Nova Iorque de stilettos, estou mais ou menos safa dos entorses (curiosamente, estou sempre de rasos quando torço o pé, mas adiante) e a vida corria bem.

Ainda não vos tinha contado, mas na última semana - devido a alguns percalços (vamos a eles mais tarde, prometo) - tenho pensado em ficar mais três meses em Nova Iorque. O mesmo raciocínio foi feito no final do meu segundo mês no Brasil: comecei a pensar que precisava de fazer e de viver tanta coisa (como ganhar uma das melhores amigas que tenho), que tinha ainda tantas pessoas para conhecer (como o Djavan, que acabei por abraçar na vida real e com quem troquei algumas palavras), aventuras (como a de gravar um videoclipe com a Isa e que estará no Youtube para o resto da vida) e viajar um bocado (Bahia, São Paulo, Maranhão, Ceará)... todas estas coisas inesquecíveis aconteceram nos 3 meses adicionais que vivi no Rio. E comecei a sentir esse mesmo nó no estômago aqui em Nova Iorque. 

No entanto, para eu poder ficar mais 3 meses, teria de obter um visto de estudante. Para tal, tinha de escolher um curso, verificar se a escola é acreditada, eventualmente pedir um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos (o que eu queria fazer custava 3500 dólares, são trocos de que não disponho), pedir aprovação do visto (que podia sempre ser recusado), encontrar uma nova casa e mudar-me, mudar o voo de regresso pela TAP e pagar cerca de 400-500 euros, faltar ao aniversário da minha mãe agora em Janeiro... Enfim, haveria muito por onde escolher, por onde stressar... E tudo isto porquê? Porque a menina Rafa acha que não aproveitou ainda o suficiente e que só agora é que começou a diversão.

Há dois dias começou a doer-me um dente. Pois. Sou uma pessoa saudável, mantenho uma rotina dentária saudável e com visitas ao dentista duas vezes por ano e nunca me doeu um dente na vida. Nos primeiros dias andei a tapar o sol com os analgésicos. E fintei a dor com algum êxito. Ontem acordei com uma dor insuportável e decidi que tinha mesmo de ir ao dentista. Ora, dentista sem seguro nos Estados Unidos, amiguinhos, é para esquecer. PARA ESQUECER. Encontrei na Internet que a NYU tinha um departamento de medicina dentária em que os estudantes atendem os pacientes, devidamente observados pelos professores e que era um serviço low-cost. Existe o mesmo em Lisboa, achei que poderia ser uma boa opção e lá fui eu para Manhattan em busca de boas notícias.

Ora, depois de pagar 75 dólares, que era o preço base da consulta, e de uma espera razoável, sou atendida. Antes de iniciarmos o tratamento, peço-lhe que me observe e me diga em quanto vai ficar, que é só para não ter más surpresas. E em boa hora o fiz. Então diz-me ela que tenho uma cárie debaixo de uma restauração num dente pré-molar. Sendo que o nervo estava morto, era necessário fazer uma desvitalização e pôr uma coroa. Tratamento que ficaria na módica quantia de 1560 dólares. You can't make this stuff up. Salta-me uma lágrima grossa. Se analisássemos essa lágrima à lupa, ela tinha um balão de fala em que dizia "Seus filhos da puta, não tenho esse dinheiro. E em Portugal uma merda de uma desvitalização não custa mais de 100 euros, seus cabrões de merda!".

Ela disse-me que seria possível fazer a primeira parte da desvitalização, que me faria passar a dor, mas que no prazo de poucas semanas teria de terminar o trabalho (tratar a raiz do dente). Esta primeira parte custava 110 dólares. Saí por uns momentos, escrevi a um amigo dentista, que me explicou logo o que se passava (sim, eu não fazia ideia de que "root canal" era "desvitalização") e me escreveu uma mensagem num inglês técnico brilhante, para que eu passasse à jovem dentista com "instruções" sobre os passos a seguir, dizendo que assim que eu regressasse ele trataria da segunda parte do procedimento. A sério, quão extraordinário tem de se ser para ter um gesto destes? (Obrigada, Pedro Laranjeira!) Fiz (a primeira parte d)o tratamento e estou 185 dólares mais pobre.

Ontem, segunda-feira, o meu regresso a Portugal no dia 6 de Janeiro ficou confirmado. Tenho três semanas pela frente, mas depois regresso a casa. Afinal enganei-me: home is where my dentist is.

Não consigo escrever!

2.12.14

Sou dura comigo. Sou mesmo muito dura.
Não só tenho uma capacidade de auto-crítica elevada, como tenho excelentes e frequentes hábitos de fustigação mental.
Esta censura aos meus gestos, pensamentos e atitudes não me impede de fazer ocasionalmente figura de parva. Mas gosto de pensar que essas tolices fazem parte do meu encanto.

Comecei a fazer um curso gratuito no Creative Live (se não conhecem ainda este site, não sabem o que estão a perder) sobre criatividade: Fulfill your Creative Purpose. Hoje houve uma espécie de debate sobre a criatividade e um dos intervenientes dizia que existem dois bloqueios para o processo criativo:
- dar demasiada atenção ao resultado
- dar demasiada à importância à forma como somos percepcionados, perdendo de vista quem somos efectivamente

Bem, não precisava de um curso para chegar a esta conclusão. 
Durante este ano, cerca de 10 pessoas tiraram-me do Facebook. Para mim, que nunca confundi o Facebook com a vida real e que sei que os meus 1779 amigos não podem ser considerados amigos na verdadeira acepção do termo, mas sim contactos, pessoas que gostamos de ler, pessoas que pertencem à nossa vida, uns com mais ou menos importância, este gesto tem uma grande importância: significa que essas 10 pessoas têm algo contra mim tão forte que não querem nem lembrar-se de que eu existo. Estas 10 pessoas removeram-me das suas vidas virtuais por várias razões: uma porque levou a mal uma chamada de atenção minha sobre o seu comportamento no meu mural; outra porque ficou ofendida com uma questão que aconteceu na vida real; outra porque se sentiu insultada por eu ter retirado um comentário agressivo que fez a um post meu. Estas pessoas tinham algo em comum: não são meus amigos na vida real. Algumas destas até me conheciam pessoalmente (uma delas há mais de 10 anos), mas não eram pessoas que me *conheciam*. Uma destas pessoas em particular, de quem não esperava uma atitude radical em relação a mim, fez-me sofrer. Literalmente. Passei a primeira semana que estive em Nova Iorque profundamente afectada por esta rejeição (que acaba por ser o problema inerente) e cheguei até a pensar que não tinha estofo para isto de escrever publicamente, de me expor na Internet.

O medo de escrever continua. Provavelmente porque me levo demasiado a sério e quero criar bons conteúdos, quero que vocês - leitores - se identifiquem, se divirtam ou, pelo menos, se distraiam comigo. Estive em conversações durante alguns meses com uma das revistas mais famosas de Portugal. Eles achavam piada ao meu Facebook e surgiu a ideia de escrever uma crónica semanal para eles. Acabei por escrever uma primeira crónica quando ainda estava no Rio de Janeiro, mas que foi rejeitada porque estava demasiado penteadinha, demasiado lambidinha, portanto, muito pouco "Rafa". Eles queriam a minha escrita colorida, atabalhoada, espontânea, despretensiosa, com asneiras até se fosse preciso. E eu fiquei de enviar uma segunda crónica, transformada e mais livre... e nunca o fiz. Andei sempre em busca de uma inspiração que não chegava, em busca de uma hora livre e despreocupada para escrever que nunca mais tive. Tinha medo, claro. Medo de alcançar uma visibilidade para a qual não estava preparada, medo de não ter disponibilidade mental para escrever semanalmente coisas giras, engraçadas e relevantes, medo de não saber lidar com as críticas (sim, porque os haters andam aí) que iriam começar a chegar. Então deixei o assunto ali quietinho.
O problema é que a sensação de assunto pendente permaneceu. Estão a ver quando têm o computador com todos os programas aparentemente desligados, mas depois fazem CTRL+ALT+DEL, vão ao Gestor de Tarefas e vêem dezenas de programas e aplicações a correr no background? Essa sou eu, essa é a minha cabeça. Então, às vezes é preciso fechar a aplicação, de uma vez por todas. Escrevi uma mensagem à editora da revista, agradecendo-lhe pela oportunidade mas que, de momento, não poderia assumir um compromisso desta envergadura. Disse-lhe que precisava de recuar um bocadinho e voltar a escrever sem me importar com os likes, com o feedback, com as opiniões alheias. E para isso tinha de assumir uma atitude mais discreta. Ela compreendeu e cada uma foi à sua vida.

Portanto, aqui estou eu para vos dizer que: 1) não tenho sentido muita vontade de escrever; 2) sou uma pessoa com sentimentos e não lido muito bem com críticas destrutivas; 3) gosto de vocês e 4) isto da escrita deve ser um exercício diário e vou fazer o meu melhor para dizer alguma coisa de jeito, mas caso isso não aconteça, mandem-me beijinhos na mesma.

A minha primeira conversa profunda com um taxista

12.10.14



Ontem esteve um dia chuvoso e frio em Nova Iorque. Depois de ter arranjado um cartão sim americano (da Go Smart Mobile que é o mais barato possível e, ainda assim, vou largar 40 dólares por mês, mas tenho até 3 gigas de Internet para poder escrever-vos e carregar fotos no Instagram), apanhei um táxi para a Union Square porque me apetecia enfiar num sítio quentinho e com livros. Apanhei um taxista do Bangladesh e fomos a conversar os poucos minutos que a corrida durava (aqui só posso apanhar táxi para distâncias curtas, porque é assim a atirar para o carote). Quando lhe disse que era portuguesa, ele disse-me logo que sabia alguma coisa sobre os portugueses e a História de Portugal. Disse-me que uma vez teve um livro de História que se chamava "The depart of Vasco da Gama". Eu fiquei contente: ao ouvir alguém a falar de Vasco da Gama numa cidade tão longe de Portugal senti-me abraçada.

Quando lhe disse que ia para a Barnes & Noble (uma grande cadeia de livrarias, tipo Fnac, mas maior), ele sorriu e disse-me:
"A Barnes & Noble é o único sítio nesta cidade onde não se gasta dinheiro". Eu anuí, com a cabeça, e ele reiterou: "Comprar livros é um investimento que fazemos em nós próprios, por isso nunca é efectivamente GASTAR dinheiro. Percebes o que eu digo?".
Claro que percebo.
No final, já quase a chegar, perguntei-lhe, naquele mesmo tom com que pergunto à minha mãe "Gostas de mim?", aquele tom em que já sabemos a resposta:
- "New York is nice, huh?"
- "I love it here..."
- "Really? "
- "New York is the best place to be."

Despedi-me, desejei-lhe uma boa vida e entrei na Barnes & Noble, decidida a gastar o meu budget inteiro da semana e a pensar: "Por que raios os taxistas de Lisboa só sabem falar de mamas?"

Nova Iorque, a minha nova casa

10.10.14




É isto, chegou o dia. 
Hoje mudo-me de mala e bagagem (a TAP só me permite levar uma) para Nova Iorque.
Confesso que ainda não sei muito bem como cheguei até aqui, sabem? Parece que anteontem estava eu sentada no sofá de uma casa da Mouraria, casa essa que já não é minha, a pensar como seria boa ideia eu ir morar em cidades interessantes por esse mundo fora durante um ano. Daí ao Rio de Janeiro foi um instante. O número de cidades passou de 4 para 5 e o período passou de 1 para 2 anos. E agora, pouco depois de ter regressado a Lisboa, já estou a ir embora outra vez.

Pois bem, deixem-me que vos diga: o entusiasmo do desconhecido nunca é tão forte como a intimidade daquilo que nos é confortável. Se me perguntassem muito a sério, eu diria que gostava de ficar sentada aqui neste banco do aeroporto, nesta Lisboa bonita que eu adoro, e não ter de ir embora e começar do zero numa cidade onde não conheço ninguém. Dá trabalho. Implica investimento emocional. Temos de descobrir forças - onde quer quer elas estejam - para abraçar um novo dia-a-dia, uma nova rotina, novas pessoas, procurando manter, ao mesmo tempo numa dança maluca, as relações estáveis que me tornaram a pessoa que sou hoje.

Sim, a zona de conforto é boa e eu gosto. Mas ter a liberdade para atravessar um oceano e esculpir uma vida quase do nada é mágico.

Já só faltam dois dias!

8.10.14
Ainda tenho uma mala de 30 kg por fazer (e sim, vou aproveitar até ao último quilo disponível), tenho lentes de contacto para comprar, um vinho do Porto para as minhas novas flatmates americanas que não sabem o que é álcool bom e muitas pessoas para beijar... isto tudo antes de sexta-feira de manhã. E depois, sim, posso começar a entusiasmar-me com os três meses na melhor cidade do mundo (dizem eles). Nova Iorque, estou a caminho!

(ainda nem acredito)

Instagrameando

5.10.14



A coisa interessante sobre o Rio de Janeiro é a seguinte: se não acreditas em Deus, vais ao cimo do Pão de Açúcar, olhas para a vista panorâmica sobre a cidade e, muito provavelmente, depois de 5 minutos estás convencido que *isto* não é um acaso do Universo. 
Tão simples quanto isto: a beleza do Rio de Janeiro devolve-nos a fé que nem sequer sabíamos que tínhamos.

Ser contemporânea do Tim Maia. Ou a razão pela qual gostava de ter nascido no Brasil.

16.9.14


Os seis meses que passei no Rio de Janeiro contribuíram para uma pequena revolução dentro de mim: a adaptação a um novo contexto (tão mais diferente de Lisboa do que se possa pensar), o gradual processo de criação de intimidade com a cidade, o desenvolvimento de uma vida social e a sorte de surgirem algumas amizades, a aprendizagem diária de hábitos culturais (saborear uma paçoquinha à tarde, comer feijão preto em todas as refeições, beber cerveja sem grandes pesos na consciência, dar um pulo na praia antes de ir para o escritório). A imersão no Brasil era de tal forma total que não raras vezes me passava pela cabeça "gostava de ter nascido aqui". E pensar isto não implica desprimor pelo meu país ou pelas minhas raízes. Implica, sim, um amor tão grande pela cidade e cultura que me acolheu durante metade deste ano.

A música sempre ocupou um lugar fundamental na minha vida. Tendo um pai músico, cresci no meio de cordas de guitarra, discos de vinil e de boa música. Ainda assim, quando fui para o Brasil conhecia muito pouco acerca do Tim Maia. Umas 3 ou 4 canções, talvez. O Tim Maia não é um cantor de massas em Portugal - é um cantor de nicho, um cantor apreciado pelos hipsters e intelectualóides. No Brasil, o Tim Maia era um rei do povo. Apesar de ter feito muito sucesso com clássicos da música romântica, o Tim Maia pôs o Brasil a dançar desde os anos 70 até aos anos 90. Foi a grande voz do soul e do (verdadeiro) funk brasileiro e não fica ABSOLUTAMENTE NADA a dever a grandes vozes negras mundiais como o Otis Redding, Barry White ou Marvin Gaye.

Para além do Lucio Battisti (cantor italiano que morreu em 1998, aos 55 anos, precisamente com a mesma idade e no mesmo ano do que o Tim Maia), nunca ouvi falar de nenhum músico que reunisse tanto consenso: toda a gente, de qualquer classe social e de qualquer gosto musical, no Brasil lhe reconhece o talento, carisma e genialidade. Continua vivo. Houve um musical sobre a sua vida, de muito sucesso e que esteve anos em cena, houve reedições de discos, é comum ver concertos de músicos actuais brasileiros, em que estes cantam uma ou duas músicas do Tim. 

Depois de ouvir muitos álbuns, de ver muitos concertos online, de ler tudo o que havia para ler sobre o Tim, ganhei uma profunda admiração por esta figura de talento e que congregava tanto ódio e amor. Conhecido por ser um homem polémico, adepto da má vida, ter mau feitio para dar e vender, Tim Maia deixa um país inteiro de luto ao sentir-se mal num dos seus concertos. Toda a gente tem alguma coisa a dizer sobre ele, toda a gente tem uma história com alguma (ou várias) das suas músicas. No próximo mês estreia no Brasil o filme sobre a vida do Tim Maia. Não vou conseguir dormir enquanto não o vir. Com ele, aprendi o verdadeiro significado do conceito de referência cultural. E sinto-me sempre um bocadinho mais carioca quando estou a ouvir a sua música.

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