Odisseando

25/11/09

Se melhorar estraga!


Já tive algumas festas de aniversário inesquecíveis.

- aquela quando eu fiz 10 anos, e não tendo uma casa grande para receber pessoas, a minha avó organizou uma festinha na garagem dela, enquanto nós criancinhas comíamos pastéis de nata em miniatura misturados com os gases dos tubos de escape;

- aquela quando fiz 22 anos e comemorei com os meus amigos brasileiros numa discoteca da moda no Rio de Janeiro. Foi especial porque, fazendo anos a 22 de Novembro, foi a única vez em que comemorei o meu aniversário sob um calor de 37 graus;

- ou aquela em Milão, quando fiz 24 e reuni para um aperitivo um enorme grupo de pessoas, cada um de uma nacionalidade diferente e rimos como perdidos, festejando a alegria e minimizando a língua, que quando queremos verdadeiramente, não é barreira nenhuma...


Mas...existirá coisa mais especial do que chegar a uma cidade nova e, depois de 3 semanas, conseguir juntar 10 pessoas queridas de várias fases da minha vida para uma festa de aniversário e ter o Tito Paris a tocar mornas e a cantar os Parabéns só para mim?


A sério, tentem lá bater isto!

23/11/09

26 anos

O meu 25º ano de vida foi um ano interessante.
Escolho o adjectivo "interessante" porque não o quero etiquetar como "bom" ou "mau". Não quero e não sei.

Foi um ano de liberdade e, principalmente, de libertação.

Foi um ano de grandes amizades. Daquelas que duram para sempre.

Foi um ano sem Eros ou paixão. Um ano de coma sentimental e recuperação do meu atropelamento emocional.

Foi um ano artístico: muita música, viagens culturais, leitura e cinema.

Foi um ano social: o meu nome nas guest lists mais cobiçadas, os muitos jantares, noites regadas a bom vinho e boas conversas.

Foi um ano de descoberta emotiva. Da busca de forças aos lugares mais recônditos do meu ser.

Foi um ano de grande coragem. Daquelas em que fazemos as malas, empacotamos a nossa vida e partimos com um bilhete de só ida. Ou só regresso, depende da perspectiva.

Foi um ano de riscos. Arrisquei e não caí.

Foi um ano difícil. Contudo, o sorriso mantém-se. A inocência eufórica que me é característica permanece.

Hoje faço 26 anos. Em relação a um ano atrás, mudei de país, encontrei um dos meus trabalhos de sonho, fiz 5 novos grandes amigos, mudei de visual e ganhei resistência emocional.

Sorrio agora sozinha... com a serena consciência de quem não tem medo de arregaçar as mangas e ir à luta.

30/10/09

I should have known better




É claro que viajar é extraordinário e que há poucas coisas melhores do que uma viagem romântica com o nosso namorado ou namorada. O descobrir a cidade, o de saber que para o resto da vida associaremos aquela cidade a bons momentos passados a dois.
O pior é quando a relação acaba...e temos alguns milhares de fotos de cidades e lugares maravilhosos - com ele!! - e não olhamos para elas só para não vermos aquele rosto, nem para nos lembrarmos daqueles momentos.
Falo por mim que guardei, bem escondidinhas no meu disco externo, numa pasta chamada Passado, fotos absolutamente maravilhosas de Bruxelas, Nova Iorque, Praga, Barcelona, Sevilha, Porto, Lisboa, Valencia, Ibiza, Friburgo, Londres, Zurique, Ilha de Elba, Bolonha, Juan-les-Pins.
Safam-se Berlim, Paris, as segundas viagens a Londres e Barcelona, Madrid, Roma, Nápoles, Veneza, às quais fui sozinha ou com amigos.

Para a próxima já sei:
nunca tirar fotos abraçada a nenhum homem e insistir para ficar sempre sozinha nas fotos. Assim será mais fácil mandar para a reciclagem aquelas que não nos interessam.

29/10/09

Only for translators


Alegria maior não há quando chegamos às 2 da manhã, depois de estar a trabalhar há cerca de 10 horas, e nos deparamos com um ficheiro de mais de 4000 palavras para fazer ainda antes de dormir.
Mas ao fazermos uma análise rápida com o Trados...temos a feliz surpresa que afinal trata-se da tradução efectiva de apenas 1658 palavras, em vez das 4180.
Razão para dizer...

I LOVE TRADOS!

27/10/09

Quantas vidas cabem numa vida?

Há oito anos e 20 Kgs atrás mudava-me para Leiria, numa altura em que me despedia dos meus 17 anos e abraçava a maioridade.
Sob a desconfiança dos meus pais e com uma simpática média de secundário de 16 valores, que me permitia entrar praticamente no curso humanístico que desejasse, decidi inscrever-me na Licenciatura de Tradução no Instituto Politécnico de Leiria. Ali encontrei das pessoas mais interessantes e marcantes da minha vida que ainda hoje permanecem entre os meus contactos mais chegados.
Naquela cidade, vivi romances, grandes amizades, crises de fé, alguns amores e tentações, muitos orgasmos intelectuais, apaixonei-me pela arte do cinema e pelo cheiro dos livros e dos jornais.
Eu que nunca tinha usado um casaco comprido na vida, na cidade mais húmida do país adaptei-me ao frio e à estação de Inverno que até então nunca tinha conhecido intimamente. Morei lá 4 anos e vivi em 5 casas diferentes, mas fui verdadeiramente feliz na última, com a minha querida Sílvia de Coruche e a Sandy venezuelana-da-Madeira. Ontem desempacotei os últimos caixotes datados do último mês em que lá estive, Setembro de 2005: abri-os e encontrei para minha grande surpresa uma enorme colecção de Jornal de Letras e dos extintos Suplementos Mil Folhas do Público, que coleccionava religiosamente.
Leiria foi a cidade em que me tornei adulta e a cidade que assistiu à minha explosão como ser humano.



Em Outubro de 2005 fui para o Rio de Janeiro. Fui fazer um estágio curricular, a dar aulas de Inglês. Tinha alunos que eram meninos favelados, como antigas professoras universitárias.
Era a primeira vez que andava de avião: 12 horas para baptismo de vôo, nunca fiz as coisas por metade.
Quando falo da minha estada no Brasil, todos pensam que estive lá 1 ano ou até mais. Na verdade, estive lá 3 meses. Mas foram 3 meses sem qualquer contacto com Portugal, a Internet não era uma coisa tão comum e era lentíiiiiiiissima, fazendo daquilo uma imersão total. Morei com um carioca e três mulheres cearenses e recebi lições de vida valiosíssimas. Aprendi a ser vaidosa no Rio e amei aquele povo como ninguém. Bebia caipirinhas todas as noites, fui para a praia no dia de Natal sob uns escaldantes 40 graus, nunca fui assaltada e fazia amigos nas filas nas lojas. "Moça, você tem de vir na minha casa. Eu moro lá em Vila Isabel, cê tem de pegar o ônibus 31 que passa lá pertinho pertinho e vem tomar um suco na minha casa." As pessoas lá são assim.
Marcou-me de tal forma aqueles meses que ainda hoje tenho a minha versão romantizada do Brasil. Que é verdadeira.



Em Fevereiro de 2006, depois de um ano quase sem Inverno, vi neve pela primeira vez quando aterrei em Milão. Ia como estudante Erasmus, embora tivesse já feito todas as cadeiras. Fui lá fazer disciplinas extra-curriculares como História do Médio Oriente, História e Cinema, Literatura Italiana, Literatura Francesa e Tradução Italiano-Inglês.
Cheguei lá sem saber dizer sequer "cielo", saí de lá 3 anos depois, a interpretar de Português para Italiano numa reunião com o homem mais poderoso de Milão, o Presidente da Regione Lombardia. (pronto, vá, depois do Berlusconi, o homem mais poderoso de Milão)
Voltei a pegar numa bicicleta depois de décadas de jejum, troquei duas vezes de trabalho, conseguindo duplicar o meu salário de um ano para o outro. Sendo Milão uma cidade com 3 aeroportos, usufruí deste espaço multicultural e cosmopolita até ao limite, aventurando-me por todas as minhas cidades de sonho, sozinha ou acompanhada, conforme calhasse. Fiz muitos amigos, contrariando a minha própria teoria: eu acreditava piamente que quando se acabava o período de estudos era difícil fazer amigos. Pelos vistos não. Sempre fui assim e sempre serei. It's my thing.

Pensava que a decisão mais difícil da minha vida seria deixar Milão, a cidade onde me tornei mulher. E foi. Fiz as malas, empacotei 3 anos de vida e regressei à cidade que me viu crescer, Portimão. Com que por coincidência, a empresa onde trabalhava entrou em processo de falência e provavelmente fechará as portas em Dezembro. Bom timing o meu, hein?
Continuei a trabalhar como tradutora freelancer e a vida corria-me bem. Nas calmas.



Sem procurar nada e quietinha que estava no meu canto a frequentar o Curso de Formação de Formadores (CAP) e a começar a tirar a carta de condução, recebi uma proposta para um dos meus trabalhos de sonho: na área dos serviços linguísticos, mas como gestora de projectos.
Fui à entrevista em Lisboa no mês de Outubro e passada uma semana recebi a notícia de que me tinham escolhido - contra as minhas expectativas, devo admitir - e começo a trabalhar no início do mês.
Desisti do CAP, da escola de condução, contei a novidade à família e amigos e no dia 1 de Novembro de 2009, mudo-me para Lisboa e começo uma nova era. Tem-me vindo à mente de como tantas pessoas que conheço rogam aos céus uma oportunidade para começar de novo, uma oportunidade para se aventurarem e fazerem algo totalmente diferente. Vejo-me a mim nesta posição de já ter começado do zero tantas vezes e sinto-me fortunada.
Já vou mais ou menos na minha terceira vida e pela primeira vez em muito tempo estou estupidamente feliz.

23/10/09

Traidora?



Ele era bom. Nunca me tinha dado problemas de maior, a não ser no primeiro ano de vida, em que me apagou todos os meus trabalhos da universidade e eu fiquei desconsolada. Mas a partir de então, foi uma ferramenta exemplar. Estava bom de saúde, eu limpava-o - interior e exteriormente - e sentia um grande carinho por ele.
Fui com ele para o Brasil, alegrámos a vida de tantos meninos brasileiros que nunca tinham visto uma coisa tão moderna; andámos juntos desde as favelas até à Barra da Tijuca.
Foi comigo de Erasmus para a capital da moda, Milão. Juntos escrevemos a tese e maravilhosos trabalhos universitários. Para o recompensar, levei-o a grande parte das capitais europeias, levei-o mesmo quando ia de férias, nunca nos separámos.
Traduzimos três livros, já publicados em Portugal, escrevemos cerca de 1 milhão de palavras publicadas em sítios web, folhetos, brochuras, manuais de instruções, contratos, patentes internacionais. Juntos escrevemos mais de 10 mil e-mails, juntos acabámos e começámos relações, de amizade, de amor e de ódio. Juntos lutámos contra os malditos vírus e vencemos. Foi um computador de guerra, tendo já o M e o N apagados.
Ele era relativamente rápido, mas não deixava de ter a sua idade. Não tinha wireless, a RAM era pouca, o disco era apenas de 50 Gigas, o ecrã tinha problemas de contacto: de cada vez que o
movia, ficava às escuras, enfim...
Eu queria algo mais moderno, mais atraente, mais rápido e com todos os novos gadgets.


Assim, ontem comprei um Sony Vaio cor de paixão, que andava a namorar secretamente há 2 anos. Chiu, não digam nada ao meu HP Compaq velhinho. Vou continuar a usá-lo aos fins-de-semana, para ele se sentir útil e importante na minha vida. Beijinhos para ti, querido.



Nota: Sinto-me traidora porque compreendo agora que talvez ainda não tivesse chegado a hora. Talvez ainda durasse mais alguns anos na minha mão, mas eu sucumbi às pressões de um desejo consumista, ainda que tenha resistido 2 anos a comprar o Vaio. O que me consola é o facto de termos vivido 5 anos intensamente e os nossos muitos momentos felizes.

22/10/09

O melhor elogio de sempre


"Tens uma aura muito bonita, especialmente quando sorris"

(Dito por um homem espiritual que me tinha visto só 2 vezes.)

(Des)respeito


Aqui em Portimão existe o drama das AECs, as actividades de enriquecimento curricular. Tenho algumas amigas que trabalham neste tipo de actividades, ensinando a língua inglesa em algumas escolas primárias em várias freguesias do Algarve.
Eu própria fui "seduzida" para trabalhar com eles. Aliás, "seduzida" é a palavra menos apropriada possível, pois as empresas que contratam os professores pagam 10 euros por hora e dão horários terríveis, tipo das 15.30 às 17.00, perfazendo umas 10 horas por semana. Portanto, 400 euros por mês não me parece que seja nada "sedutor" para nenhum profissional. Sim, trabalha-se poucas horas, mas o horário que oferecem mata completamente o dia e para a maior parte das pessoas é impossível conciliar com outra actividade que seja.

Ontem, conversando com a Vera, contava-me chocada que uma menina do 2º ano, com 7 aninhos, tinha agredido a professora.

- Até é difícil de acreditar: a criança parecia louca, começou aos pontapés na professora e esta, devido à nova lei que saiu, não pôde nem sequer levantar a mão. Tiveram de fugir todos da sala e foi lá uma das auxiliares - que é forte - tentar domar a miúda, que ficou na sala a dar pontapés nas mesas e a arrastá-las de um lado para o outro.

Eu incrédula:
- A sério? Mais parece uma cena do filme "O Pestinha"!!

A Vera muito calma:
- Não, Rafaela. Aquilo era uma cena do "Exorcista".


Nota: Eu nunca fui mal comportada e sempre fui boa aluna. Mas lembro-me perfeitamente quando a minha professora da primária, a Prof. Lutília, tirava os anéis dos dedos e se aproximava com a mão em riste. Apanhei algumas chapadas, mas não me parece que isso me tenha criado um trauma. Que raio de lei é esta que protege os alunos malcriados e violentos e não protege os professores?

19/10/09

Um estranho fenómeno

Jamie Foxx e Robert Downey Jr. (que está como o vinho)

Há duas dezenas de anos que frequento cinemas.
É algo que me descontrai e houve alturas em que via três ou quatro filmes por semana, às vezes até saía de uma sala para entrar noutra. Sim, assumo, podia ser algo ridícula tamanha sofreguidão, mas lembro-me que estávamos com os Óscares à porta e eu queria ver todos os filmes antes da cerimónia.
Pois que em tantos anos de cinema, tantos filmes que me passaram pelos olhos e pela alma, nunca me tinha acontecido o que me aconteceu há umas semanas: chorar num trailer.
O trailer tem pouco mais de 1 minuto e normalmente funcionam como um teaser relativamente ao filme, mas nunca existe nem se cria envolvimento suficiente para ter uma ligação emocional com o que se está a ver.
E as lágrimas assomaram-se com a apresentação do filme "O Solista", com um Jamie Foxx esquizofrénico e um Robert Downey Jr amargurado.
Lembro-me de ter sentido uma curiosidade e urgência enorme em ver o filme, porque o enredo era promissor: a música e o talento, a pureza da amizade são temas que me dizem muito.
Cheguei a casa e fiz download do filme e vi-o nessa mesma noite. No final, soube-me a pouco. Apesar de a história estar bem construída e estar algo envolvida na trama, não verti nem sequer uma lágrima, nem me emocionei. Ficou a faltar alguma coisa àquele filme. Tinha potencial para ser uma obra-prima, mas não passou de um filme-pipoca.

18/10/09

O meu pai bem me avisou...


...para eu abandonar os loiros da minha vida e deixar de me interessar por eles de uma vez por todas. Mas a verdade é que me vejo a ver o programa Ídolos só para ver o Laurent Filipe.
Já tinha ouvido de falar dele como músico, na altura em que eu tinha a mania que queria ser a Diana Krall portuguesa, versão sem piano e de cor negra, mas não sabia que era tãoooooo charmoso.
Babo-me, meus amigos, babo-me.


15/10/09

A piada do mês

Any news to report on your love life???


Excerto do e-mail que a minha querida amiga Holly, com quem partilhei casa em Milão, me enviou há minutos.

14/10/09

A case of you

Diana não deixou de cantar o maior hino ao seu país natal, o Canadá, com a divinal "A case of you", um clássico da sua conterrânea Joni Mitchell.
A minha canção preferida, em duas versões ao vivo fabulosas: Diana e Joni.
Não consigo escolher qual das duas prefiro.


Just before our love got lost you said
I am as constant as a northern star
And I said, constant in the darkness
Wheres that at?
If you want me Ill be in the bar

On the back of a cartoon coaster
In the blue tv screen light
I drew a map of canada
Oh canada
And your face sketched on it twice

Oh you are in my blood like holy wine
Oh and you taste so bitter but you taste so sweet
Oh I could drink a case of you
I could drink a case of you darling
And I would still be on my feet
Oh Id still be on my feet

Oh I am a lonely painter
I live in a box of paints
Im frightened by the devil
And Im drawn to those ones that aint afraid
I remember that time that you told me, you said
Love is touching souls
Surely you touched mine
Cause part of you pours out of me
In these lines from time to time

Oh you are in my blood like holy wine
And you taste so bitter but you taste so sweet
Oh I could drink a case of you
I could drink a case of you darling
Still Id be on my feet
And still be on my feet

I met a woman
She had a mouth like yours
She knew your life
She knew your devils and your deeds
And she said
Color go to him, stay with him if you can
Oh but be prepared to bleed
Oh but you are in my blood youre my holy wine
Oh and you taste so bitter, bitter and so sweet
Oh I could drink a case of you darling
Still Id be on my feet
Id still be on my feet

13/10/09

Ela é a personificação...


...da doçura, do talento, do charme.
Aquela voz grave de contralto, a destreza dos dedos que acariciam e batem no piano, a elegância no cantar, nas piadas que conta em tom intimista. Conversou com a plateia do Campo Pequeno como se conversasse com a família durante o jantar.
Há 10 anos tornei-me fã da Diana Krall e desde então tenho seguido de perto os seus passos. Este fim-de-semana vi-a ao vivo e quando fecho os olhos ainda a oiço cantar.

01/10/09

As celebridades e os crimes

Samantha Geimer, a vítima de Polanski

Tenho dificuldades em acreditar em histórias de violações de autoria de celebridades.
Não porque os considere impunes ou isentos de qualquer espírito-instinto animal que os faça querer apossar de alguém sem o seu consentimento, mas porque considero que por parte da vítima há ali sempre um rasgo de semi-orgulho ou de aproveitamento da situação.
Passou-se há alguns anos com o R. Kelly, em que ele tinha sido acusado de violar uma rapariga de 15 anos. Nem sequer vou entrar na discussão sobre a idade, embora eu seja da opinião que aos 15 anos não se é uma criança e sabe-se muuuito bem o que se faz.
Depois há a questão do "querer ser famoso a todos os custos" que sabemos muito bem como funciona...e quem não sabe, fique a saber que em Portugal as meninas do curso de Direito de uma certa universidade de Lisboa atiram-se descaradamente e chegam a vias de facto com um baixo autor famoso, na esperança que ele as adicione ao elenco de uma das novelas dele.
Portanto...se isso acontece na nossa modesta Lisboa, porque não aconteceria com R.Kelly ou com o Roman Polanski, em que a alegada vítima, neste caso, era uma modelo e aspirante a actriz - como todos os jornais fazem questão de frisar? E estamos a falar dos anos 70 nos Estados Unidos, em que os grupos feministas estavam no auge e as mulheres faziam de tudo para reclamar a independência?
Neste caso, o pior mesmo é que parece que ele confessou o crime há uns anos e até parece que a história que a moça contou é verdade, o que me anula qualquer tipo de argumento. Justiça é justiça e obviamente as celebridades não poderão estar-lhe impunes.

Mas sou humana, sou fã dele e faz-me confusão que seja condenado por um crime cometido há mais de 30 anos.

Estar de volta

Há quem se pergunte como tem sido a minha rica vidinha desde que voltei.
Todos os dias, seja por Facebook, seja por e-mail, seja por telefonema, há sempre uma alma com quem ainda não conversei e me lança a fatídica questão:

- E como está a ser adaptação a Portugal?

Eu respondo sempre a mesma coisa.

- Está tudo a correr bem, obrigada.

E pronto, normalmente o assunto fica por ali.
Parece-me sempre que as pessoas, não muito íntimas, quando fazem este tipo de perguntas não querem entrar a fundo na questão...e eu faço-lhes o favor de responder uma banalidade.
Será que querem mesmo saber que sinto falta de apanhar o metro em Pasteur, estar a 10 minutos da Piazza del Duomo, entrar na Mondadori e ficar a beber um cappuccino enquanto olho para a multidão apressada cá em baixo?
Que sinto falta dos meus queridos colegas, com quem partilhei um dos anos mais difíceis e intensos da minha vida, e que me ensinaram "a não chorar no local de trabalho" e a "não levar as coisas tão a peito"? Esses meus colegas - amigos, diria - que me escrevem todas as semanas no Facebook "Rafa, ci manchi"; "Rafa, tornaaaaaaa!"; "Rafa, si sente tanto la tua mancanza, vogliamo vederti presto!"?
Que sinto falta de sair à noite, pagar 7 euros e beber um Negroni Sbagliato (bebia sempre isto quando me queria sentir mais italiana) ou um Rossini (um cocktail de spumante con succo di fragola maravilhoso, que bebia sempre que me queria sentir sexy) e ter acesso a um buffet fantástico de comida de todo o tipo?
Que sinto falta de morar com a Holly, conversarmos sobre o nosso dia e falarmos mal dos italianos e de como apresentam a meteorologia em Itália? (Ale e Moreno, gli unici italiani che leggono 'sto blog - vi voglio bene, ok?)
Sim, sinto falta de todos estes aspectos...boas coisas, sem dúvida. Mas não estou infeliz, nem sinto a nostalgia que achava que iria sentir.

Porquê? Porque pela primeira vez em muito tempo tenho projectos e metas muito concretas a alcançar. Comecei a tirar o CAP, vou começar a tirar a carta de condução e comecei a fazer dieta acompanhada pela nutricionista mais simpática de todos os tempos (só podia ser almadense).

Ao mesmo tempo, tenho trabalhado imenso em traduções, estou a planear uma viagem a Dublin para Outubro with my dear Holly, tenho já planeada a viagem a Londres em Novembro para ir ver a Beyoncé com a Renée, e estou a organizar uma viagem a Milão em Dezembro para ir finalmente ao SCALA ver uma ópera com a Carla que continua por lá, mas sei que me inveja de morte.

Tenho andado a limpar a porcaria que a contabilista responsável pela minha declaração de IRS fez (sim meus amigos, para cima de 500 euros de multas fiscais, mais os largas larguíssimas centenas de euros de IRS para pagar). Mas sinto-me tranquila. Estão aqui os meus amigos, a minha família, a minha terra...ainda que sinta alguma falta de "civilização", é bom estar de volta.

E depois, quando pego na bicicleta* e em 3 minutos estou aqui...


...a sério, de que me posso queixar?



*Sim, copiei a moda milanesa de andar de bicicleta para todo o lado, esquecendo-me que Portimão não tem nenhuma rua totalmente plana. Bom para o meu rabo, sem dúvida!

27/09/09

Ter blog ou não ter

Não, não abandonei o meu blog.
Mas no outro dia uma pessoa que me é próxima disse-me que quem tem blogs são uns descompensados...e aquilo tem boicotado a minha inspiração ou vontade de escrever.

Além disso, graças ao meu inato defeito de pouca capacidade de contra-argumentação - razão pela qual nunca poderia ser advogada - não soube responder à letra e dizer que descompensadas são as pessoas que metem fotos semi-nuas no Hi5 e que não sabem escrever português devido às horas que passam nos mais variados chats a conversar com gente burra e que só escreve "mx, pukê, muninu" e depois desaprendem o português da vida real. Isso sim são descompensados. E idiotas.

15/09/09

Foi com ele...




...a primeira vez que associei o conceito de "sexy" a alguém.

Foi a primeira vez que olhei um homem não como um adulto que nos oferece rebuçados, mas como um adulto com quem eu podia casar. Tinha 8 ou 9 anos e tinha visto o Dirty Dancing pela primeira vez.

Tinha-o gravado e via todos os santos dias, sabendo de cor todas as falas do filme. Até o Ken que a minha mãe me tinha comprado, eu fingia que era o Johnny Castle e fazia-o dançar com a Barbie na água e fazer aqueles saltos que ele fazia com a Baby.

Lembro-me que a minha mãe não percebia, porque dizia-me sempre que ele era muito feio, que não entendia como eu gostava dele. Eu, na minha sabedoria dos 9 anos dizia-lhe:
"um homem sexy não tem de ser bonito".

Hoje, o homem que fazia as mulheres dizer "Eu trouxe uma melancia" morreu.

11/09/09

Ode a Milão

Não cumpri o que a Andorinha me aconselhou: "nunca voltes ao sítio onde foste feliz". Não porque não quisesse ou não concordasse, mas porque tive de voltar para o casamento de uma amiga italiana muito especial - o primeiro casamento de amigos a que vou na minha vida.
Depois de ter deixado Milão há sensivelmente um mês, ontem regressei.
Já no aeroporto, todos me faziam perguntas sobre a cidade e pediam-me direcções, às quais eu respondia prontamente e sem hesitação. Senti que morava ainda ali. Que é como nunca tivesse partido.

A minha antiga senhoria deixou-me ficar no apartamento onde vivi nos últimos 2 anos. Regressei ao meu quarto, agora vazio, de objectos e de qualquer vestígio de alma e não posso descrever a estranheza que senti. Mas dormi...em paz.

A coisa mais interessante de todas é que tinha sempre receio - e foi um dos motivos que me fez decidir vir embora - que ficando em Milão, ficaria presa às memórias de uma relação falhada e de uma pessoa que durante grande parte do tempo foi a minha principal referência nesta cidade. Ontem percebi que não.

Sentada no shuttle com direcção a Milão, só me lembrava das coisas boas que aquela cidade me ofereceu: os panzerotti do Luini, andar de bicicleta no Parco Sempione, as noitadas na La Banque, jantares às 4 da manhã de pasta al forno com os amigos, ainda atordoados pelo gin e pelas horas passadas a dançar, da cioccolata calda al peperoncino do Choco Cult, das noites fabulosas no Blue Note, as centenas de saídas com os colegas de trabalho, as imitações dos colegas, as amizades grandes com a Andreia, Hugo, Alessandra, Renée, e os amigos de one-night-stand, das noites de verão no terraço do Hotel Cavalieri em Missori, de entrar no E-Dreams e pensar "então, para onde é que vou viajar no próximo fim-de-semana", das aulas de Português com o Michele na Mondadori do Duomo, das noitadas com a Holly a beber vinho e a rir como perdidas e a reproduzir - fielmente - cenas de Friends...lembrei-me destas coisas. E aí percebi: os melhores momentos que passei nesta cidade, não estão em nenhum momento relacionados com ele. Milão tem uma memória própria, uma vida própria. Gosto desta cidade e vou regressar sempre que puder, visto que não sou uma turista. Sou da casa.

24/08/09

Mas que vergonha é esta?

Quer dizer...anda uma pessoa a viajar pelo mundo inteiro e, sendo algarvia, nunca meteu os pés em Tavira? Ainda por cima agora, que foi considerada uma das melhores praias do mundo?
Vou já tratar do assunto. Nos próximos dias vou estar neste hotelzinho muito bem acompanhada por 1 grande amiga e vou estar a passear ali no sotavento algarvio.

23/08/09

Surpresas



E eis que quando apareço à sua frente, noto uma lágrima gorda a deslizar por detrás dos seus enormes Armani...e outras copiaram-lhe o gesto logo a seguir.
Assim que me aproximei arrebatou-me num abraço que durou 1 minuto... (e 1 minuto na vida real é tanto!) E logo ela, que como a própria diz, "não é dessas merdas".
Aquelas lágrimas sussurraram-me ao coração tomaste a decisão certa.
E eu sorri.

21/08/09

Frases inesquecíveis *

They ain't tough enough, smart enough or fast enough. I can hit any bank I want, any time.
They got to be at every bank, all the time.

- Sorry about that fellow Barton...one who got killed at Sherone Apartments. Newspapers said you found him alive. It's the eyes, ain't it? They look at you right before they go. Then they drift into nothing. Keep you up nights.
- What keeps you up nights, Mr. Dillinger?
- Coffee.

- But I don't know anything about you.
- I like baseball, movies, good clothes, fast cars, whiskey, and you...
What else you need to know?

Bye-bye, blackbird.

20/08/09

O dia da maior odisseia de todas...

Manhã

Acordei muito cedo.
De manhã tinha de ir ao INPS, vulgo Segurança Social italiana, pedir uma declaração em como havia descontado cerca de 500 euros todos os meses para a Segurança Social...dinheiro esse que nunca mais vou ver na vida.
Depois quis comprar um souvenir antes de me ir embora, qualquer coisa para mim, visto que não fui a nenhuma loja durante os saldos milaneses e queria ir-me embora com uma coisa simbólica italiana. Fiquei-me por um par de óculos brancos da Armani. Giros.
Fui comprar também uma trolley azul turquesa na Carpisa. Saldos de 30%, nada mal.
Toda a manhã senti níveis de stress altíssimos, seja por a hora da partida estar a aproximar-se, seja porque a mala custava a fechar e ainda tinha coisas espalhadas pela secretária que não fazia ideia onde as iria enfiar. Além do stress tinha um amargo na boca, aquela sensação que não conseguimos identificar a 100%, seria medo, excitação, pontinha de arrependimento por ser tão impulsiva e espontânea? Também desestabilizada porque tinha recebido um e-mail do meu ex em que pedia para nunca mais o contactar e em que ameaçava apagar todo o meu blog através dos seus conhecimentos de hacker só porque não acatei ao seu pedido - que me tinha feito semanas antes - de apagar toda e qualquer referência à nossa história amorosa neste meu blog. Fez-me até uma lista num documento word, de várias páginas, com todas as palavras e frases e posts que requeria que eu apagasse para todo o sempre. Isto tudo acompanhado história do costume "ai que estou tão feliz com a minha nova namorada, que mora comigo aqui na Líbia, que é perfeita, e tem o 46 de soutien e é atlética e linda e que até já a apresentei aos meus pais de tanto que a amo, mas deixa-me lá passar 3 horas por dia no blog da minha ex, porque não tenho mais nada que fazer". Obviamente não é bonito receber e-mails do género. Na manhã da minha partida, dei o meu grande grito do Ipiranga quando, ao receber um segundo e-mail dele, certamente tão simpático como os outros, apaguei-o antes de o ler. Ponto para mim. Acabou-se, não quero mais que ele tenha esta influência nefasta sobre o meu humor e amor-próprio. Tenho de meter na cabeça que ele já não é a pessoa com quem vivi durante dois anos em Milão. No entanto, o amargo da boca ainda cá está. E receio que seja uma amargura numa área mais vasta do que na boca apenas.

Tarde

Peguei na mala que, segundo a minha balança digital e usando o método caseiro "pesar-me sozinha e depois pesar-me com a mala e ver a diferença de peso", vi que teria uns 5 kgs em excesso. Pensei "ok, não morro pelos 8 euros que custa cada kilo em excesso". Mal sabia eu que as companhias aéreas aumentam os preços a cada semana, e que agora cada kilo era 12 euros.
Peguei na mala nova cheiinha de coisas, mais a trolley pequena perfeita para bagagem de mão, mais a mala do portátil, mais a minha mala (ou seja "purse" - por que raio usamos a mesma palavra - mala - para dizer "purse" e "suitcase"??) e lá fui eu para o aeroporto.
Dirigi-me para o check-in e começou a aventura.
A minha mala grande tinha 25 kgs e a rapariga do check-in informou-me a melhor notícia dos últimos tempos:
- A Easyjet permite UMA SÓ bagagem de mão. Você tem 3 (a mala de mão, a trolley e a mala do portátil). Não lhe vão deixar passar nas portas de segurança.

Apesar das minhas tentativas para lhe explicar que não podia enfiar o portátil em mais nenhum lado, ela foi irredutível. Disse-me para colocar o portátil e a a mala-purse dentro do trolley pequeno, que este passava visto ter dimensões perfeitas.
Saí da fila.

Fiz uma grande ginástica e lá libertei algum espaço no trolley pequeno e meti coisas na mala grande. Sempre era melhor pagar peso em excesso do que ter de mandar 2 bagagens para o porão.

Voltei para a fila do check-in, desta vez, escolhi uma outra rapariga menos chata. Resultado: a minha mala grande estava inchadíssima, deitei fora a mala do portátil - não tinha mesmo sítio onde a enfiar - e coloquei o portátil dentro do meu trolley que levaria como bagagem de mão. Mas a mala-purse tinha-a à mesma na mão, pois não havia espaço em lado nenhum para as coisas que tinha lá dentro.

No check-in a rapariga viu que a mala grande tinha 26 kgs, mas escreveu só 5 kgs em excesso no recibo. Foi simpática. Fui pagar os 60 euros (12 euros x 5 kgs) e voltei ao check-in. Eu agradeci-lhe e lá fui eu com a minha trolley pequenina com muita lingerie e portátil e disco externo à mistura e a minha mala purse.

Cheguei ao controlo de segurança e estava lá a maior CABRA do universo:
- Não pode passar com estes dois volumes. Tem de colocar a mala dentro do trolley.
- Senhora, mas já tive de deitar fora a mala do portátil e colocá-lo cá dentro. É impossível, não cabe também a mala.
- Então não pode passar. Tem de mandar o trolley pelo porão.

Ainda tentei fazer outra dose de ginástica e enfiar a mala dentro do trolley mas era mesmo impossível. Voltei ao check-in, à mesma rapariga que me tinha feito o desconto de um kilinho.
Disse-lhe quase a chorar que queria matar todas as pessoas da Easyjet e depois suicidar-me a mim, mas acho que piadas relativas a homicídios no aeroporto não são muito bem-vindas, por isso corrigi logo com um "excepto a si, que é muito simpática".
E então, para pesar meu, dei-lhe a trolley para mandar para o porão. Vamos à parte da matemática, que isto vai ser engraçado. Ora, só pelo facto de termos uma bagagem adicional para mandar pagam-se 22 euros. Depois por cada quilo adicional, pagam-se os 12 euros. Ora, pesámos a trolley que tinha 12 kgs.
Eu teria de pagar: 22 euros (bagagem extra) + 12 euros x 12 kgs = 166 euros.
No recibo - porque no check-in nunca recebem dinheiro, temos de ir com o recibo ao balcão da Easyjet no centro do aeroporto para pagar - ela colocou somente 1 volume extra = 22 euros.
Eu olhei para ela e perguntei:
- Então e os kgs em excesso?
- Schhhhh... - e saudou-me com um sorriso cúmplice.
Fiquei emocionadíssima com o gesto e lá fui pagar os 22 euros em vez dos 166.
Depois voltei ao check-in para retirar o bilhete e agradeci à rapariga muito carinhosamente. Há pessoas assim. Fiquei a pensar quantas vezes já fui beneficiada por ser uma pessoa simpática - existe mesmo esta tendência para que os outros nos façam favores e nos ofereçam coisas, é extraordinário.

Passei pela CABRA dos controlos de segurança, agora só com a minha mala-purse - e tive de enfiar o meu portátil lá dentro porque não o quis mandar para o porão, mas a mala sendo pequena, metade do portátil estava de fora. Felizmente não implicou com isso e deixou-me a passar.

Só repetia para mim "Quando chegar a casa, vou jurar que é mentira".


Fim de Tarde

Cheguei a Lisboa no final da tarde e fiquei assustada com os 5000 posters sobre a Gripe A que decoravam o aeroporto de Lisboa. Em Itália, ninguém fala da Gripe A, é perfeitamente como se não existisse.
Esperei as malas, fui à Vodafone comprar um cartão para pôr no Blackberry e apanhei táxi para o Oriente, esperei duas horas - que usei de forma muito produtiva passeando-me pelo Vasco da Gama - pelo autocarro da Renex que me levaria para Portimão.
No autocarro, fiquei com o número de um dos lugares da frente, em que podia ter vista panorâmica sobre a estrada. A noite estava a cair e a lua cheia estava maravilhosa e linda.
Estava finalmente em casa.

O último dia


Contei baixinho 1, 2, 3 e respirei fundo.

Não era fácil, já passavam das 23h e tinha acabado de chegar de um jantar mexicano com a minha, agora, ex-roommate Holly. Ela mudara-se no fim-de-semana antes para um monolocale maravilhoso, com mobílias do Ikea por estrear, pertinho do Corso Buenos Aires. Para quem não era capaz de ir ao supermercado sozinha alguns meses antes, hoje mudar-se para um mini-apartamento e ir morar sozinha...parece-me um bom salto, não é? Depois de uma noite emocionante - que já se esperava - afinal morámos juntas 1 ano, ela esteve lá...em cada momento difícil meu e foi autora também das maiores gargalhadas que dei neste ano tão conturbado, é sempre difícil o conceito de "Adeus, vou mudar de país".
Ofereceu-me um postal...já vos disse que os ingleses adoram postais? É uma coisa parva, para qualquer eventozinho existe um postal. Na Inglaterra vendem-se postais como se fossem pastilhas elásticas, há-os por todo o lado e a preços ridiculamente baixos tipo 40 postais a 2 libras e coisas do género. Cá em Portugal acho que se perdeu a magia dos postais...nem no Natal os enviamos...
Voltando ao postal...as lágrimas foram inevitáveis. Impossível não fazer um balanço, pelo menos, daquele último ano, o ano em que partilhámos uma casa e uma vida.

As despedidas dos amigos do trabalho e do coração já tinham sido feitas, ao longo dos últimos dias, misturadas com muitas horas de trabalho com as traduções que ainda estava a fazer. A Holly foi a última pessoa com quem estive. Não houve um drama extraordinário em nenhuma destas ocasiões pois regresso a Milão para um casamento no início de Setembro, então esteve sempre presente esta ideia, que daqui a um mês revejo toda a gente. Ou pelo menos a gente que interessa.

Regressei a casa e tinha ainda o mais difícil por fazer. Arrumar e organizar as minhas gavetas. Já tinha enviado com a transportadora os meus 110 livros, os 60 dvds, os 30 e tal pares de sapatos (desfiz-me de alguns para bem da minha sanidade mental ao tentar enfiá-los todos numa mala enorme) e os meus 10 casacos compridos de Inverno. As coisas grandes tinham ido.
Faltavam as coisas pequenas...e por favor, não as ignoremos, porque dão mais trabalho do que as grandes. Sem dúvida nenhuma.
Abrir as gavetas foi por si só uma viagem ao mundo das recordações. Além das facturas, recibos verdes, recibos de vencimento, documentos de rendimentos, canetas que ia comprando, selos velhos sem validade, isqueiros que comprei na viagem a Paris há 2 anos - e desde aí prometera a mim mesma que nunca mais compraria souvenirs porque não servem absolutamente para nada, tinha tudo o resto: os postais dele, o dos vários aniversários e os de Natal. Abri-os e reli-os. Quis deitar fora. Tive receio de me arrepender, porque aquilo é a minha história. Guardei um e o outro escorregou-se-me da mão e no monte que se ia fazendo no chão ficou. Encontrei também os vários saquinhos com as várias dezenas de dólares que me tinham sobrado da viagem a Nova Iorque; outro com as libras das viagens a Londres; encontrei pastas com dezenas de postais e bilhetes de avião de todos os sítios que visitei nestes dois anos: Praga, Barcelona, Valencia, Madrid, Nova Iorque, Londres, Paris, Nice, Freiburg, Berlim, Ibiza, Sevilha, Veneza, Siena, etc. Isso e talões de compras, facturas de farmácia, tudo numa deliciosa e dolorosa confusão de lembranças, mas que ao mesmo tempo me afagava a alma e me dizia: Tu viveste bem.

Depois de ter escolhido o que queria deitar fora e o que queria guardar, organizei tudo em pastas e fui metendo na minha mala. Por volta das 3 acabei as arrumações e esvaziei todas as gavetas. Queria muito ter esvaziado a alma, mas essa estava mais cheia do que nunca.

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